O dogmatismo travestido de cepticismo

Um indivíduo de Esquerda admite a imutabilidade da Natureza Humana, o que é extraordinário: em bom rigor, ele não é propriamente de Esquerda — ou não é revolucionário, o que vai dar no mesmo: todos os revolucionários são de Esquerda.

E a contra-revolução permanente consiste em raspar sistematicamente o verniz da inteligibilidade (com que os revolucionários pretendem permanentemente ocultá-la) que cobre o Mistério da Existência e da Natureza (trata-se de um Mistério positivo, que é sombra da Realidade, e não propriamente um Mistério negativo que é sombra da nossa condição de ignorantes).

bertrand-russell-esgar-webChama-se “burguesia progressista” à classe revolucionária que tomou o Poder no Ocidente (não confundir com o “burguês tradicional”, que se extinguiu no início do século XIX).

Ao burguês actual, podemos inculcar-lhe — em nome do “progresso” — qualquer patranha, e vender-lhe, em nome da arte, qualquer mamarracho.

Chama-se a isto “cultura”, que não pode ser confundida com “Natureza Humana”.

Hoje, os “intelectuais” (por exemplo, os pachecos) defendem a ideia segundo a qual “a Natureza Humana mudou porque mudou a cultura”: são os mesmos que dizem que “a lógica evoluiu e progrediu”.

O tal indivíduo de Esquerda (de seu nome Carlos Matos Gomes) começa por constatar um facto que Fernando Pessoa descreveu sucinta- e poeticamente:

“A velhice do eterno novo”.

Só os estúpidos não sabem que o novo é tão velho quanto o mundo.

E contrapõe (o tal indivíduo) o dogmatismo ao cepticismo; mas o dogmatismo que ele critica é o dogmatismo moderno, dito “racionalista”, que tem uma confiança quase absoluta no poder da Razão.

Contudo, convém que se diga que a experimentação (ou a experiência) não confirma nem refuta os axiomas matemáticos ou/e os dogmas religiosos — portanto, há uma diferença abismal entre o “dogma racionalista”, combatido por David Hume e depois por Bertrand Russell, por um lado, e, por outro lado, o “dogma religioso” que não é uma especulação da consciência religiosa, mas antes é uma fórmula canónica de enigmas experimentais que pretende evitar que a doutrina católica se evapore em metafísica.

Porém, o momento de maior lucidez do ser humano é aquele em que ele duvida da sua própria dúvida.

Mais do que razões para crer, ele há melhores razões para duvidar da dúvida. O crente pode saber como se duvida; mas o incréu não sabe como se crê.

Portanto, o cepticismo, que o tal indivíduo apoia e contrapõe ao “dogmatismo racionalista”, não é um bem em si mesmo.

Aliás, o cepticismo moderno (o de Hume e Bertrand Russell) pode assumir uma forma dogmática, na medida em que o céptico recuse colocar em causa a validade da sua própria visão céptica da realidade — e é esse o dogmatismo do tal indivíduo, quando nega a evidência de que a Rússia violou o Direito Internacional ao invadir a Ucrânia: trata-se de um dogmatismo travestido de cepticismo.

Agora é que a Raquel Varela vai defender a morte dos neonazis em todo o mundo

Ao fazer “zapping” na televisão, dei com a cara furibunda da cripto-comunista Raquel Varela porque os seus (dela) colegas de programa da RTP3 não aceitavam a ideia de que “toda a gente nas Forças Armadas da Ucrânia é neonazi”.

Os russos deram como justificação, para a invasão da Ucrânia, a “desnazificação” deste país — e a Raquel Varela claramente aceita o argumento russo como válido.

Agora, o parlamento russo pretende levar a cabo a “desnazificação” dos países bálticos, da Polónia, e do Cazaquistão.

desnazi russo web

Aposto que a Raquel Varela se enche agora de jubilo e de felicidade: os russos vão eliminar os nazis da Letónia, da Lituânia, da Estónia, da Polónia, e do Cazaquistão — quiçá com umas bombinhas atómicas para aquecer o ambiente frio da Primavera.

Não tarda nada, os russos (amigos da Raquel Varela) poderão lançar uma bombinha atómica no Terreiro do Paço para liquidar os “nazis do CHEGA”.

Algumas notas acerca dos putativos “neonazis” na Ucrânia

1/ A defesa da Ucrânia é compostas por duas forças distintas:

  • as Forças Armadas, propriamente ditas, com os seus três ramos, que dependem do ministério da Defesa;
  • e a Guarda Nacional, que depende do ministério do Interior e que compõe cerca de 40% das forças de defesa da Ucrânia.

2/ Da Guarda Nacional da Ucrânia, uma parte dela é composta por milícias para-militares (tipo mercenários) que desde 2014 (desde a anexação da Crimeia pela Rússia) são financiadas pelos Estados Unidos (Joe Biden), França (Macron), Reino Unido (Boris Johnson), e Canadá (Trudeau). Existem milícias para-militares (mercenários) provenientes de 19 países e nacionalidades.

3/ Passam em alguns me®dia e blogues de extrema-esquerda “notícias” de que a) a Guarda Nacional ucraniana é toda composta por milícias para-militares (o que é absolutamente falso), e que b) as milícias para-militares são todas de extrema-direita (o que também é falso).

Existem batalhões de milícias para-militares controlados por mercenários de extrema-direita (nomeadamente na região do Donbass e em Mariupol), mas é totalmente falso que se diga que toda a Guarda Nacional ucraniana é controlada pela extrema-direita”.

A razão por que aparecem estes combatentes de extrema-direita na Ucrânia (é absurdo dizer deles que são “neonazis”, porque o seu anti-semitismo é cultural, e não político) serão eventualmente explicados noutro verbete.

Com jeitinho, “os russos fizeram muito bem em invadir a Ucrânia”.

Falta pouco. Mais um cadinho, e “os russos não têm culpa nenhuma por terem invadido a Ucrânia”.


É a inversão da culpa (a inversão do sujeito-objecto): a culpa dos actos de horror causados pelo exército ocupante é das vítimas, porque estas não compreenderam a missão revolucionária das tropas soviéticas, quero dizer, russas, que as libertaria dos neonazis que controlam a Ucrânia e libertariam este país do imperialismo gringo.

« As vítimas mortais da acção revolucionária soviética, digo, russa, não foram assassinadas: em vez disso, suicidaram-se, porque não compreenderam a missão revolucionária das tropas soviéticas, quero dizer, russas — e a acção revolucionária soviética, quer dizer, russa, é a que obedece sem remissão a uma verdade dialéctica imbuída de uma certeza científica que clama pela necessidade de um futuro dos “amanhãs que cantam”, sem o controlo neonazi na Ucrânia e livre do imperialismo americano.

A luta continua! »

Vou fazer um desenho, a ver se os burros entendem

Imaginem que, em Espanha, acontece um golpe-de-estado que coloca um ditador do Poder. Segue-se que as tropas espanholas, comandadas por esse ditador, invadem Portugal.

Imaginem depois, e por absurdo, que três (poderiam ser mais ou menos) partidos políticos portugueses defendem a legitimidade da invasão espanhola, e apregoam essa legitimidade em público, inclusivamente defendendo a aniquilação da nação portuguesa.

Acto continuo, o presidente da república portuguesa e o Tribunal Constitucional decidem ilegalizar esses três partidos políticos.

¿O que aconteceria nos me®dia portugueses?

Veríamos o Miguel Sousa Tavares e a Raquel Varela a reagir à ilegalização desses três partidos políticos, afirmando que o regime político português é autoritarista, intolerante e “fassista”.

Não são só idiotas úteis, nem se trata apenas de má-fé!: são mesmo estúpidos!

Mais uma “posta” da Carmo Afonso no jornal Púbico

Já muita tinta se gastou acerca das escrevinhações no jornal Púbico de um outro estafermo causídico, que dá pelo nome de Carmo Afonso. Neste texto (ler em PDF) acerca da invasão russa da Ucrânia, o estafermo causídico incorre em diversas falácias, a começar pela

1/ falácia do NIN, ou a tipologia da “esquerda pré-diluviana”:

“Neste caso da invasão [da Ucrânia pela Rússia], não é que gostem do Putin, esse “capitalista”, como grazinou o Avô Jerónimo, mas o Putin é russo, era do KGB e da URSS, e o Sol do Mundo era lá para os lados de Estalinegrado, foi naquelas longitudes que eles foram formatados a esperar o “Homem Novo”, enfim, faz parte do seu sistema operativo.”

2/ depois, o referido estafermo “intelectual” invoca, como argumento, um maniqueísmo inexistente (uma falsa dicotomia) — porque o que está em causa com a reacção negativa à invasão russa não é, fundamentalmente, uma putativa luta moral do bem contra o mal, mas antes é o respeito (ou desrespeito) pelo Direito Internacional que está em causa.

3/ uma advogada que parece ter dificuldade em compreender a perigosidade da violação gritante do Direito Internacional, só pode ser indigente cognitiva.

4/ o argumento Tu Quoque: o estafermo diz, de uma forma implícita e subjacente, que a invasão da Ucrânia por parte da Rússia pode ter sido justificada (por exemplo) pela invasão do Iraque pelas potencias ocidentais. Ou seja, para aquela trampa com olhos, um mal pode justificar outro mal.

5/ finalmente, o argumento dos “nazis da Ucrânia” (que é, de facto, um dos “argumentos” de Putin para invadir a Ucrânia) — um país com um presidente da república judeu.

Trata-se de uma falácia da generalização (e simultaneamente uma falácia da composição): basta que exista um só neonazi na tropa ucraniana, para que (segundo aquela avantesma) todos os membros das Forças Armadas se tornarem suspeitos de serem nazis.


A família do falecido Belmiro de Azevedo deveria ter vergonha do papel que desempenha na comunicação social em Portugal.

O José Pacheco Pereira combate a Natureza Humana, em nome de uma implícita apologia da superioridade de virtudes próprias

Eu já aqui referi, várias vezes, que o José Pacheco Pereira é um indivíduo muito perigoso, nomeadamente porque, amiúde, junta “alhos com bugalhos” (através de logomaquias ou de argumentação contraditória entre si) para fazer a crítica niilista da sociedade — na esteira, aliás, da Teoria Crítica. O problema é que ninguém (nos me®dia) se atreve a contradizê-lo; o Pacheco não tem contraditório; opera em roda livre.


«Bombardeamentos? Ocorrem em vários sítios.

Se estes refugiados ucranianos, que são brancos, fossem negros ou muçulmanos, nada do que está a acontecer acontecia. Bombardeamentos de cidades ocorreram no Iémene, ocorreram na Líbia, ocorreram no Sudão, ocorreram… aa… aa… na… no sul do Sudão, no Darfur. Ocorreram em vários sítios… na Faixa de Gaza. Há bombardeamentos sobre cidades e há, em muitos casos, centenas de refugiados, só que têm a cor errada.”»

José Pacheco Pereira


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Desde logo, existe (no referido trecho) uma recusa (gnóstica) da Natureza Humana — porque, normalmente, tendemos a proteger mais aqueles que nos são mais próximos; por exemplo, eu preocupo-me mais com a minha família do que com a família do vizinho: é uma característica da Natureza Humana.

O José Pacheco Pereira recusa e despreza a Natureza Humana, em nome da suas próprias virtudes que ele considera serem superiores às do comum dos mortais. O José Pacheco Pereira considera-se um Übermensch; ele está acima da condição humana. É uma espécie de profeta com qualidades sobrenaturais — um Pneumático moderno — que anuncia ao mundo a necessidade premente de um paraíso na Terra.


Vamos a factos: apenas a Alemanha, em 2015, recebeu mais de 1 milhão de refugiados sírios, na esmagadora maioria muçulmanos e “castanhos”; e vem aquele animal dizer que se os refugiados “fossem negros ou muçulmanos, nada do que está a acontecer acontecia”. Aquele estafermo é de uma filha-da-putice à prova de bala!

O José Pacheco Pereira não olha a meios para fazer a crítica dissolvente dos valores do Ocidente, de tradição cristã.


diogenes alexandre web

O Pacheco faz lembrar Antístenes, o cínico — o precursor do nominalismo.

O símbolo do bastão com que Antístenes enxotava os seus discípulos representa não só uma realeza interior (pretensa, auto-assumida e subjectiva), em que o bastão simboliza o ceptro, mas também a severidade com que são tratados, à maneira de um bom médico (ou de um grande profeta), aqueles que pretendem tornar-se “sábios” como ele. Também a imagem do “cão”, explorada por Diógenes (outro “cínico”), tal como no Pacheco, simboliza a rosnadela e a mordacidade daquele que se julga superior à Natureza Humana e, por isso, desconfia de tudo e de todos.

O Pacheco é uma amostra pós-moderna de uma mistura anacrónica de Antístenes e Diógenes.

Tal como estes dois, o Pacheco critica a própria existência da opinião (doxa) entendida em si mesma, em nome da prevalência da sua própria opinião sobre a opinião dos outros. É também isto que faz dele uma figura perigosa — alegadamente porque (dizem os cínicos) a doxa detém um duplo sentido: em primeiro lugar, a doxa resulta de um conjunto de preconceitos (ou seja, costumes e convenções, que são próprios da Natureza Humana, que o Pacheco despreza) que, alegadamente, a sociedade impõe de forma artificial; depois, a doxa (a dos outros) traduz o vão desejo da glória (mas este critério já não se aplica à opinião do cínico Pacheco).

O “sábio” Pacheco (tal como Antístenes e Diógenes) recusa a lei da cidade (a lei que é baseada nos costumes, na tradição, na moral), no sentido em que ele (o Pacheco) representa a própria lei perante si mesmo (autarcia).

É certo que o cínico (Pacheco) não é misantropo, não vive como um eremita. Pelo contrário, pretende conviver com os outros no sentido de “desassossegar” a sociedade, entrando em paroxismos sistemáticos: por exemplo, ao proclamar, pela provocação, a sua independência de espírito (a sua superioridade intelectual), o cínico (Pacheco) vai ao encontro da sua intenção provocadora; ao menosprezar as opiniões dos outros, ele sobrevive (politicamente) sempre e apenas no próprio escândalo que provoca.

A forma de ser do cínico (a do Pacheco) tende a converter-se em um conjunto de gestos ostentatórios: trata-se de uma apologia da superioridade das virtudes próprias.

A Raquel Varela e a Esquerda que se junta à Direita russófila e putinista

Tem uma certa piada ver a Raquel Varela criticar o “extremismo político”… o Daniel Oliveira tem razão: qualquer dia, a Raquel Varela será um farol do centro político…

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Se a Raquel Varela vivesse no início da década de 1930, seria contra a participação de estrangeiros na guerra civil contra Franco: por exemplo, George Orwell e Ernest Hemingway fizeram parte do albergue espanhol dos voluntários que combateram pela república espanhola; e que eu saiba, estes dois não eram “extremistas”.

É interessante verificar como a Esquerda (a que pertence a Raquel Varela) tem posições semelhantes a uma determinada Direita “pró-Rússia” que identifica as forças militares da Ucrânia com os neonazis: trata-se de uma falácia da generalização: basta que exista um só neonazi nas forças armadas ucranianas (dizem eles) para que toda tropa seja neonazi.

E depois, a Raquel Varela cai no ridículo: essa “extrema-direita” que (alegadamente) infesta as Forças Armadas ucranianas e a Legião Estrangeira, são (alegadamente) “supremacistas brancos” que se opõem… aos “pretos russos”! (?)

¿Será que os russos são pretos !?

A Raquel Varela compara a Legião Estrangeira ucraniana com os jihadistas…! E não me venham dizer que “o texto não é dela”! Quem não contraria uma determinada ideia, concorda com ela (ou, como dizia Salazar: “em política, o que parece, é!”)

Tucker Carlson e a defesa do isolacionismo americano

Vemos aqui, em baixo, uma imagem que classifica os “pivots” da Fox News segundo as suas posições políticas.

fox news anchors

Esta classificação é importante para compreender a opinião do “pivot” Tucker Carlson no que diz respeito à posição dos Estados Unidos em relação à invasão da Ucrânia pela Rússia. Nos seus últimos programas, Tucker Carlson manifestou a opinião segundo a qual os Estados Unidos se devem não só afastar do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, mas devem mesmo assumir uma posição de neutralidade em relação à invasão da Rússia à Ucrânia.


Vejamos a seguinte proposição que resume a posição de Tucker Carlson:

“A guerra entre a Rússia e a Ucrânia não diz respeito aos Estados Unidos, e este país deve assumir uma posição neutral em relação a uma situação que lhe é estranha”.

Esta posição de neutralidade dos Estados Unidos em relação a conflitos externos não é nova — por exemplo, Charles Lindbergh ficou também famoso por ter defendido uma posição de neutralidade em relação à participação dos Estados Unidos na I Guerra Mundial. A posição de Charles Lindbergh, ou seja, a neutralidade dos Estados Unidos em relação a guerras na estranja, é perfeitamente aceitável se for coerente em toda a sua linha de raciocínio — o que, no caso de Tucker Carlson, não é coerente.

Vejamos agora a supracitada proposição com um aditamento que lhe confere a coerência necessária:

“ 1/ A guerra entre a Rússia e a Ucrânia não diz respeito aos Estados Unidos, e este último país deve assumir uma posição neutral em relação a uma situação que lhe é estranha. 2/ E para que esta posição de neutralidade assuma um Todo coerente, os Estados Unidos devem sair da O.T.A.N.”

Nunca veremos o Tucker Carlson defender a saída dos Estados Unidos da O.T.A.N. (ou NATO), porque isso implicaria uma decadência acelerada da influência americana no Ocidente — e embora o corolário lógico da posição de neutralidade impusesse essa saída.


Nota:

Os libertários, em geral, e os republicanos votaram em Donald Trump, assim como os “cristãos conservadores”.

Os “liberais clássicos” (os liberais que se identificam com a linha de pensamento de JFK até Bill Clinton), assim como os “liberais progressistas” (a manta de retalhos que é Esquerda radical americana), votaram em Hillary Clinton e em Joe Biden.

Os republicanos não são necessariamente “cristãos conservadores”; existem, por exemplo, os “republicanos neocons”, que são “revolucionários globalistas”, como é o caso de senador republicano Lindsey Graham, entre muitos outros.