Sobre a inveja

“A virtude neste mundo é sempre maltratada; os invejosos morrerão, mas a inveja é poupada.”
― Molière, “O Avarento”

“A inveja honra os mortos para insultar os vivos.” ― C. A. Helvécio

“Os que fazem bem, são os únicos que mereceriam ser invejados, se não houvesse ainda uma mais vantajosa solução, que é fazer melhor do que eles.” ― Jean de La Bruyère

“Nunca um invejoso perdoa ao mérito.”― Pierre Corneille

“A inveja é mais irreconciliável do que o ódio.” ― La Rochefoucauld

“Destrinçai bem a emulação [estímulo; ambição], por um lado, da inveja, por outro lado: uma leva à glória, a outra à desonra.” ― Voltaire

“Há invejosos que parecem de tal forma acabrunhados pela nossa felicidade, que até quase nos suscitam a veleidade de os lamentar.” ― Edmond Goncourt

“Nunca o invejoso medrou, nem quem à beira dele morou.”― ditado popular português.


A última estrofe d’ Os Lusíadas:

“Ou fazendo que, mais que a de Medusa,
a vista vossa tema o Monte Atlante,
ou rompendo nos campos de Ampelusa
os muros de Marrocos e Trudante,
a minha já estimada e leda Musa
fico que em todo o mundo de vós cante,
de sorte que Alexandre em vós se veja,
sem à dita de Aquiles ter inveja!”

“Inveja” foi a última palavra que Luís de Camões escolheu para acabar Os Lusíadas.

“Igualdade” é a Pita que os piruta !

O Ludwig Krippahl foi (não sei se ainda é) apoiante do partido LIVRE do Rui Tavares que foi, por sua vez, deputado pelo Bloco de Esquerda no parlamento europeu; e por isso fiquei surpreendido com este verbete do Ludwig Krippahl.

Por muito que os me®dia tentem maquilhar a imagem do Rui Tavares (e fazem-no), a verdade é que este é essencialmente marxista, e o partido dele, de “livre”, tem quase nada. O Rui Tavares, à semelhança do Bloco de Esquerda, defende a igualdade de rendimentos, independentemente da dedicação e do trabalho despendidos pelos indivíduos. Rui Tavares é um comunista.

procrustes07


O Igualitarismo de Procrustes


Em aditamento ao referido artigo de Ludwig Krippahl, com o qual concordo maioritariamente, tenho a dizer o seguinte:

A obsessão pela “igualdade de rendimentos” é o fundamento de um velho totalitarismo travestido de “nova liberdade”. Como escreveu Fernando Pessoa: “é a velhice do eterno novo”.

O comunista (camuflado, ou não) começa por pedir a “igualdade de oportunidades”, mas acaba sempre por exigir que se penalize o bem-dotado. Para o comunista, a igualdade de rendimentos é a condição psicológica prévia das matanças científicas e frias (Che Guevara, Fidel Castro, Pol-Pot, Estaline, Mao, etc. ) — por exemplo, com a instituição do aborto como um “direito à igualdade da mulher”.

As matanças esquerdistas pertencem à lógica do próprio sistema obcecado pela “igualdade”.

Os seres humanos, à medida em que se sentem mais “iguais”, mais facilmente aceitam e toleram que os tratem (pelo Estado ou pelo Poder) como peças intercambiáveis, substituíveis e supérfluas.

Para além dos comunistas, os auto-proclamados “liberais, progressistas e igualitaristas”, (por exemplo, IL [Iniciativa Liberal]) ignoram a diferença entre verdades e erros: apenas distinguem a diferença entre opiniões populares e opiniões impopulares. E depois dizem que “os populistas são os outros”.

Em nome da “igualdade”, o “liberal” português degrada a liberdade antes de a estrangular; o igualitarismo dito “liberal” não suprimiu os ricos e poderosos: apenas acabou com os ricos e poderosos decentes. Graças aos “liberais” portugueses, os ricos são hoje (em geral) uma cambada de gente amoral. Já lá vai o tempo em que o patrão se preocupava minimamente com as famílias dos seus operários: hoje, salvo excepções, um rico é sinónimo de filho-de-puta.

Se a cultura é a expressão da alma colectiva — sendo que a civilização é o propósito do intelecto —, a cultura actual, dita “liberal”, espelha a merda em que se transformou o espírito humano.


Porém, sendo a igualdade impossível, Aristóteles criou o conceito de “equidade” — que é diferente do conceito de equidade adulterado pelo Wokismo.

A aplicação do conceito aristotélico de “Equidade”, distingue-se do direito igualitário porque consiste na correcção da lei positiva mediante a consideração da lei natural (o jusnaturalismo, que a Esquerda e os liberais repudiam, por exemplo, Isabel Moreira) nos casos em que a sua aplicação pudesse contribuir para uma maior e melhor justiça.

Segundo Aristóteles, a equidade é a Justiça que diz mais respeito ao espírito do que à lei e que pode mesmo moderar ou rever esta última, na medida em que se mostre insuficiente devido ao seu carácter geral.

A equidade é acção do espírito sobre a lei — em que esta (a lei) é subordinada àquele (ao espírito).

assunçao cristas quotas-web

A equidade não significa que se justifique a existência de privilégios concedidos por intermédio do Direito Positivo — como, por exemplo, a restrição da liberdade individual, por exemplo, quando o Estado impõe as chamadas “quotas de género”, que a “Direitinha” do Montenegro e/ou do Nuno Melo também defende: aqui, não se trata de “equidade”: em vez disso, é ideologia marxista disfarçada.

A equidade não garante igualdade de rendimentos (ou igualdade de qualquer outra coisa) — exactamente porque equidade não é a mesma coisa que igualdade.

A diluição retórica do Mal

Há muitos anos, um militante do Bloco de Esquerda disse-me que “o aborto é um acto de amor”.

Vemos aqui como um mal, entendido em si mesmo (o aborto), é justificado retoricamente utilizando o argumento do “amor” no casal. O argumento é o seguinte: para que o amor vingue, no seio do casal, é (muitas vezes) necessário sacrificar a vida de um ser humano em formação.

O “argumento” supra não é racional: é puramente retórico.

A retórica é tudo o que exceda o estritamente necessário para uma pessoa se convencer a si mesma.


A retórica de pior gosto é a que renuncia às exigências estritas e mínimas da cidadania, mas sem renunciar ao seu vocabulário — como é o caso deste textículo do Henrique Pereira dos Santos acerca da corrupção na política:

Eu compreendo que, politicamente, é muito mais eficaz falar de corrupção (do) que falar da simplificação de processos de decisão, que é onde acaba a desaguar o discurso racional sobre corrupção (a versão abrutalhada do discurso sobre corrupção acaba em discussões sobre penas, perseguições, justiça e essas coisas todas que, essencialmente, podem servir para assinalar a virtude superior de quem fala, mas são largamente inúteis para limitar a corrupção).”

Henrique Pereira dos Santos

O Henrique Pereira dos Santos confunde “Poder”, por um lado, e “corrupção”, por outro lado — na ânsia (irracional) de criticar o CHEGA.

A verdade, porém, é que o Poder (entendido em si mesmo) não corrompe!, apenas liberta a corrupção larvar (latente), principalmente de quem aspira irracionalmente ao Poder.

Alguns políticos actuais nem sequer se corrompem!: oxidam-se!.

Portanto, a corrupção não é uma fatalidade do Poder — ao contrário do que afirma (implicitamente) o Henrique Pereira dos Santos.

Ou seja, a “simplificação de processos de decisão” não implica necessariamente “corrupção”, mas o Henrique Pereira dos Santos argumenta que quem pretende combater a corrupção (o CHEGA) faz a ligação entre as duas coisas — tal como o militante do Bloco de Esquerda fazia a ligação entre o “amor” e o “aborto”.

É a diluição retórica do Mal.

Isabel Moreira

isabel-moreira-bruxa-web

«Todo o indivíduo que desagrade ao intelectual de Esquerda, merece a morte.

Ser esquerdista é crer que os presságios de catástrofe são augúrios de bonança.

O mau humor é uma secreção específica do intelecto de Esquerda.

O esquerdista berra que ‘a liberdade perece’, quando as suas vítimas se recusam a financiar os seus próprios assassinatos.

O esquerdista vive das genuflexões que são feitas em relação às suas próprias virtudes.

O mundo burguês trata diferentemente os seus inimigos: vomita nos da Direita e absorve os da Esquerda.

Todo o mundo, hoje, é de esquerda. Que alívio!»

(Nicolás Gómez Dávila)

O Pedro Arroja e ‘a moral de merceeiro inglês’

O projecto é a mediação do objecto pelo sujeito cognoscente (Gaston Bachelard, 1935).

Aqui, “objecto” é entendido (ou concebido) em termos gerais.


Pedro Arroja, aqui, diz que (em um processo de “projecto”) o “sujeito” se pode transformar em “objecto” — o que vai contra a ética cristã e/ou kantiana, por um lado.

Por outro lado, o conceito de “projecto”, utilizado por Pedro Arroja, vem directamente de Jean-Paul Sartre, que considera o próprio Ser Humano como “projecto” (para além da consciência do sujeito cognoscente), cuja existência no seu todo é dinamizada por uma “escolha original” (sic) a partir da qual o sujeito se constitui livremente (“liberdade”, no sentido existencialista e materialista segundo Jean-Paul Sartre).

O “projecto”, segundo Jean-Paul Sartre, transforma-se na maneira que o Homem tem de responder à situação em que se encontra e, por ventura, de lhe dar significado. É uma visão ateísta e antropocêntrica do ser humano.

Considerar a “pessoa” como um “projecto” é confundir o sujeito e o objecto: nenhum ente pode ser causado pelo seu próprio operar.

Não podemos dizer que “a perna é causada pelo andar”; nem podemos dizer que “a liberdade é causada pelos actos (acção) livres do homem”, da mesma forma que a visão não pode ser a causa do olho. Os actos livres do homem são um efeito, e não uma causa.

“Agimos porque somos livres”, mas “não somos livres porque agimos”. E isto porque a liberdade depende (é causada pela) da vontade do homem escrutinada pela razão.

A ser um “projecto”, a pessoa só pode ser um projecto de si mesma; e, ainda assim, neste contexto, só podemos considerar a pessoa como “um projecto de si mesma” em sentido metafísico — o que não é o caso invocado pelo Pedro Arroja.

A perspectiva da pessoa, de Pedro Arroja, é utilitarista — Karl Marx considerou, e desta vez com razão, o utilitarismo como “a moral de merceeiro inglês”.

O gnosticismo maçónico de Fernando Pessoa (1)

“Mais do que uma melhoria das condições biológico-profissionais das populações, o conceito maçónico de Regeneração Social representa a redenção do Género Humano enquanto processo de transformação elevatória do nível de vibração dos veículos físicos e subtis da Humanidade, permitindo um despertar progressivo de capacidades latentes e uma expansão crescente e acelerada do grau de consciência intuitiva e supra-intelectual, bem como além-fronteiras do contexto global de integração planetária e das relações individuais e grupais que com ele se mantêm, até atingir o Grupo Perfeito e Divino, a Fraternidade Universal, que deve ser conscientemente vivida no espaço sagrado da Loja maçónica, como célula básica do trabalho espiritual grupal — livre de quaisquer conotações filosóficas eventuais exclusivistas, contra o seu carácter fraternalmente internacionalista”.

→ “ O Pensamento Maçónico de Fernando Pessoa”, de Jorge de Matos, 2006, página 16


Gnose-1-webEscrevendo o trecho supracitado, Jorge de Matos não estava a ironizar: acreditava mesmo que é possível, ao ser humano, só por si e apenas pelos seus próprios meios, atingir “a redenção do Género Humano”, neutralizando e superando a própria Natureza Humana, atingindo o Grupo Perfeito e Divino (leia-se: atingindo a perfeição divina).

Olavo de Carvalho diria que esta visão da Natureza Humana retrata  uma “mundividência prometaica”.

Trata-se de uma crença — porém, a contrario sensu da crença científica e/ou da religiosa (que são crenças racionais, embora em graus de racionalidade diferentes), trata-se de um crença irracional, porque é racionalista (o racionalismo decorre de uma doença mental incurável: o Delírio Interpretativo).

O racionalismo é a expressão intelectual por excelência da irracionalidade humana — racionalismo entendido aqui como sendo proveniente da doutrina gnóstica e parasitária da Antiguidade Tardia que afirma que o pensamento racional é capaz de atingir a verdade absoluta porque as suas próprias leis são também as leis dos objectos do conhecimento (por exemplo, em Hegel: “Tudo o que é racional é [efectivamente] real, e tudo o que é real é [efectivamente] racional”).

Este racionalismo, de Hegel, provém da tradição do racionalismo do judeu Espinoza, que privilegia a Razão como Princípio Prometaico de explicação do universo, por oposição à fé religiosa, por um lado, e por oposição ao empirismo científico de origem aristotélica, por outro lado; e, simultaneamente, este racionalismo afirma o carácter racional da realidade e do sentido da História — o determinismo histórico da Cabala, que gerou o “Fim da História” de Hegel, Marx, Hayek ou Fukuyama, que se caracteriza por ser a ideologia das doutrinas que recusam a paternidade dos seus próprios crimes.

O indivíduo mentalmente deformado (por uma interpretação delirante) crê no “sentido da História” quando o futuro previsível parece ser favorável à realização das suas paixões e das suas crenças. Neste racionalismo cabalístico, a origem psicológica da razão é deixada na sombra: a sua vontade é eliminada, ou desviada para o irracional (e, portanto, negada ou rejeitada).

Por sua vez, o racionalismo panteísta (ou seja, imanente e ateísta) de Espinoza provém directamente da Cabala judaica.

Portanto, vemos aqui papel secular e importantíssimo do judeu na irracionalização do ser humano através da destruição das instituições da civilização europeia, de que a maçonaria (operativa e especulativa) foi e é uma parte predominante.

Toda a filosofia alemã depois de Kant (Kant não faz parte do Idealismo alemão!) é cabalística e irracionalista. A origem hegeliana da dialéctica marxista é cabalística, e por isso, irracional:

“A negação dialéctica não existe entre realidades, mas apenas entre definições. A síntese em que a relação se resolve não é um estado real, mas apenas verbal. O propósito do discurso move o processo dialéctico, e a sua arbitrariedade assegura o seu êxito.

Sendo possível, com efeito, definir qualquer coisa como contrária a outra coisa qualquer; sendo também possível abstrair um atributo qualquer de uma coisa para a opôr a outros atributos seus, ou a atributos igualmente abstractos de outra coisa; sendo possível, enfim, contrapôr, no tempo, toda a coisa a si mesma — a dialéctica é o mais engenhoso instrumento para extrair da realidade o esquema que tínhamos previamente escondido nela.” → Nicolás Gómez Dávila.

A dialéctica cabalística de Hegel (proveniente da Cabala Yetzira e do seu conceito de “Árvore da Vida”) levanta um problema sério: se o pensamento passa de si próprio ao seu oposto, a resolução das duas contradições (a síntese) é inconciliável com o termo inicial (que, segundo determinados exegetas, mais não faria do que reforçar, pela negação da negação), ou arrasta incessantemente de negação em negação até um pensamento “radicalmente diferente” — o que conduziria de facto a um cepticismo relativista total.

Fica a aqui a demonstração sucinta e cabal de que as doutrinas do marxismo, do liberalismo e da maçonaria (ou seja, a chamada “modernidade”) têm a mesma origem epistemológica: o movimento intelectual parasitário da gnose, da Antiguidade Tardia.

(continua)

Rawls e Nozick: duas faces da mesma moeda

Na Idade Média, as pessoas mais pobres andavam pelas ruas e mercados das cidades europeias, e abordavam os nobres e os artesãos ricos, rezando pela salvação das almas dos seus interlocutores. Em troca, os mais ricos e favorecidos ofertavam dinheiro a esses pobres que rezavam pela salvação das almas deles. Podemos dizer que era uma troca soteriológica (John Bossy, 1985).

Nesta troca, não havia caridade hipócrita — que é, em geral, a caridade hipócrita dos actuais católicos: havia uma permuta séria de serviços. Rezar pela salvação da alma de outrem era uma actividade levada muito a sério.

Ficou célebre a imagem, pintada por El Greco, de S. Martinho montado a cavalo, partilhando a sua capa com um pobre.

Com a revolução burguesa de 1779, desaparece o simbolismo de Deus que impele à coesão social.

Martinho El Greco webO Renascimento, o Aufklärung e a Tecnocracia, são filhos indiscutíveis do Cristianismo — mas são filhos que se vão progressivamente sinistrizando à medida que o esquecimento do pecado original se entranha na remanescente esperança cristã. Deste esquecimento do pecado original, surgem Rawls e Nozick, duas faces da mesma moeda, de que a professora Helena Serrão fala aqui.

Chamamos de “Era Liberal” aos quatro séculos que durou a liquidação das liberdades medievais.

A liberdade burguesa é sonho de escravos: o homem livre, propriamente dito, sabe que necessita de amparo, de protecção, de ajuda de Deus.

O prestigio da liberdade, na actual sociedade (de Nozick) que professa um determinismo científico, é um resquício cristão. Um libertário moderno é uma contradição com pernas: para abusar da sua liberdade, o libertário necessita de se converter a doutrinas deterministas. O ser humano só se submete aos seus demónios quando acredita ceder a uma espécie de decreto divino.

Para Nozick e para os libertários, “amante da liberdade” é pseudónimo do egoísta.

A liberdade não é um fim em si mesma, mas antes é um meio. Quando os libertários tomam a liberdade como um fim, não sabem o que fazer dela quando a obtém; e é então que se implanta uma tirania qualquer. Entendido como ideal supremo, a liberdade é o primeiro passo em direcção a um niilismo final.

Em Rawls, o determinismo é a ideologia das perversões humanas: as filosofias deterministas pretendem salvar a dignidade humana com ideias e práticas que diluem e esfumam as teses que proclamam. O determinista Rawls atribui à liberdade política um vigor que surpreende um fervoroso partidário do livre-arbítrio. Em boa verdade, a liberdade contemporânea de Rawls não é senão o produto de um ajuste imperfeito entre as peças da maquinaria social tecnocrática.