O Pedro Arroja e ‘a moral de merceeiro inglês’

O projecto é a mediação do objecto pelo sujeito cognoscente (Gaston Bachelard, 1935).

Aqui, “objecto” é entendido (ou concebido) em termos gerais.


Pedro Arroja, aqui, diz que (em um processo de “projecto”) o “sujeito” se pode transformar em “objecto” — o que vai contra a ética cristã e/ou kantiana, por um lado.

Por outro lado, o conceito de “projecto”, utilizado por Pedro Arroja, vem directamente de Jean-Paul Sartre, que considera o próprio Ser Humano como “projecto” (para além da consciência do sujeito cognoscente), cuja existência no seu todo é dinamizada por uma “escolha original” (sic) a partir da qual o sujeito se constitui livremente (“liberdade”, no sentido existencialista e materialista segundo Jean-Paul Sartre).

O “projecto”, segundo Jean-Paul Sartre, transforma-se na maneira que o Homem tem de responder à situação em que se encontra e, por ventura, de lhe dar significado. É uma visão ateísta e antropocêntrica do ser humano.

Considerar a “pessoa” como um “projecto” é confundir o sujeito e o objecto: nenhum ente pode ser causado pelo seu próprio operar.

Não podemos dizer que “a perna é causada pelo andar”; nem podemos dizer que “a liberdade é causada pelos actos (acção) livres do homem”, da mesma forma que a visão não pode ser a causa do olho. Os actos livres do homem são um efeito, e não uma causa.

“Agimos porque somos livres”, mas “não somos livres porque agimos”. E isto porque a liberdade depende (é causada pela) da vontade do homem escrutinada pela razão.

A ser um “projecto”, a pessoa só pode ser um projecto de si mesma; e, ainda assim, neste contexto, só podemos considerar a pessoa como “um projecto de si mesma” em sentido metafísico — o que não é o caso invocado pelo Pedro Arroja.

A perspectiva da pessoa, de Pedro Arroja, é utilitarista — Karl Marx considerou, e desta vez com razão, o utilitarismo como “a moral de merceeiro inglês”.

O gnosticismo maçónico de Fernando Pessoa (1)

“Mais do que uma melhoria das condições biológico-profissionais das populações, o conceito maçónico de Regeneração Social representa a redenção do Género Humano enquanto processo de transformação elevatória do nível de vibração dos veículos físicos e subtis da Humanidade, permitindo um despertar progressivo de capacidades latentes e uma expansão crescente e acelerada do grau de consciência intuitiva e supra-intelectual, bem como além-fronteiras do contexto global de integração planetária e das relações individuais e grupais que com ele se mantêm, até atingir o Grupo Perfeito e Divino, a Fraternidade Universal, que deve ser conscientemente vivida no espaço sagrado da Loja maçónica, como célula básica do trabalho espiritual grupal — livre de quaisquer conotações filosóficas eventuais exclusivistas, contra o seu carácter fraternalmente internacionalista”.

→ “ O Pensamento Maçónico de Fernando Pessoa”, de Jorge de Matos, 2006, página 16


Gnose-1-webEscrevendo o trecho supracitado, Jorge de Matos não estava a ironizar: acreditava mesmo que é possível, ao ser humano, só por si e apenas pelos seus próprios meios, atingir “a redenção do Género Humano”, neutralizando e superando a própria Natureza Humana, atingindo o Grupo Perfeito e Divino (leia-se: atingindo a perfeição divina).

Olavo de Carvalho diria que esta visão da Natureza Humana retrata  uma “mundividência prometaica”.

Trata-se de uma crença — porém, a contrario sensu da crença científica e/ou da religiosa (que são crenças racionais, embora em graus de racionalidade diferentes), trata-se de um crença irracional, porque é racionalista (o racionalismo decorre de uma doença mental incurável: o Delírio Interpretativo).

O racionalismo é a expressão intelectual por excelência da irracionalidade humana — racionalismo entendido aqui como sendo proveniente da doutrina gnóstica e parasitária da Antiguidade Tardia que afirma que o pensamento racional é capaz de atingir a verdade absoluta porque as suas próprias leis são também as leis dos objectos do conhecimento (por exemplo, em Hegel: “Tudo o que é racional é [efectivamente] real, e tudo o que é real é [efectivamente] racional”).

Este racionalismo, de Hegel, provém da tradição do racionalismo do judeu Espinoza, que privilegia a Razão como Princípio Prometaico de explicação do universo, por oposição à fé religiosa, por um lado, e por oposição ao empirismo científico de origem aristotélica, por outro lado; e, simultaneamente, este racionalismo afirma o carácter racional da realidade e do sentido da História — o determinismo histórico da Cabala, que gerou o “Fim da História” de Hegel, Marx, Hayek ou Fukuyama, que se caracteriza por ser a ideologia das doutrinas que recusam a paternidade dos seus próprios crimes.

O indivíduo mentalmente deformado (por uma interpretação delirante) crê no “sentido da História” quando o futuro previsível parece ser favorável à realização das suas paixões e das suas crenças. Neste racionalismo cabalístico, a origem psicológica da razão é deixada na sombra: a sua vontade é eliminada, ou desviada para o irracional (e, portanto, negada ou rejeitada).

Por sua vez, o racionalismo panteísta (ou seja, imanente e ateísta) de Espinoza provém directamente da Cabala judaica.

Portanto, vemos aqui papel secular e importantíssimo do judeu na irracionalização do ser humano através da destruição das instituições da civilização europeia, de que a maçonaria (operativa e especulativa) foi e é uma parte predominante.

Toda a filosofia alemã depois de Kant (Kant não faz parte do Idealismo alemão!) é cabalística e irracionalista. A origem hegeliana da dialéctica marxista é cabalística, e por isso, irracional:

“A negação dialéctica não existe entre realidades, mas apenas entre definições. A síntese em que a relação se resolve não é um estado real, mas apenas verbal. O propósito do discurso move o processo dialéctico, e a sua arbitrariedade assegura o seu êxito.

Sendo possível, com efeito, definir qualquer coisa como contrária a outra coisa qualquer; sendo também possível abstrair um atributo qualquer de uma coisa para a opôr a outros atributos seus, ou a atributos igualmente abstractos de outra coisa; sendo possível, enfim, contrapôr, no tempo, toda a coisa a si mesma — a dialéctica é o mais engenhoso instrumento para extrair da realidade o esquema que tínhamos previamente escondido nela.” → Nicolás Gómez Dávila.

A dialéctica cabalística de Hegel (proveniente da Cabala Yetzira e do seu conceito de “Árvore da Vida”) levanta um problema sério: se o pensamento passa de si próprio ao seu oposto, a resolução das duas contradições (a síntese) é inconciliável com o termo inicial (que, segundo determinados exegetas, mais não faria do que reforçar, pela negação da negação), ou arrasta incessantemente de negação em negação até um pensamento “radicalmente diferente” — o que conduziria de facto a um cepticismo relativista total.

Fica a aqui a demonstração sucinta e cabal de que as doutrinas do marxismo, do liberalismo e da maçonaria (ou seja, a chamada “modernidade”) têm a mesma origem epistemológica: o movimento intelectual parasitário da gnose, da Antiguidade Tardia.

(continua)

Rawls e Nozick: duas faces da mesma moeda

Na Idade Média, as pessoas mais pobres andavam pelas ruas e mercados das cidades europeias, e abordavam os nobres e os artesãos ricos, rezando pela salvação das almas dos seus interlocutores. Em troca, os mais ricos e favorecidos ofertavam dinheiro a esses pobres que rezavam pela salvação das almas deles. Podemos dizer que era uma troca soteriológica (John Bossy, 1985).

Nesta troca, não havia caridade hipócrita — que é, em geral, a caridade hipócrita dos actuais católicos: havia uma permuta séria de serviços. Rezar pela salvação da alma de outrem era uma actividade levada muito a sério.

Ficou célebre a imagem, pintada por El Greco, de S. Martinho montado a cavalo, partilhando a sua capa com um pobre.

Com a revolução burguesa de 1779, desaparece o simbolismo de Deus que impele à coesão social.

Martinho El Greco webO Renascimento, o Aufklärung e a Tecnocracia, são filhos indiscutíveis do Cristianismo — mas são filhos que se vão progressivamente sinistrizando à medida que o esquecimento do pecado original se entranha na remanescente esperança cristã. Deste esquecimento do pecado original, surgem Rawls e Nozick, duas faces da mesma moeda, de que a professora Helena Serrão fala aqui.

Chamamos de “Era Liberal” aos quatro séculos que durou a liquidação das liberdades medievais.

A liberdade burguesa é sonho de escravos: o homem livre, propriamente dito, sabe que necessita de amparo, de protecção, de ajuda de Deus.

O prestigio da liberdade, na actual sociedade (de Nozick) que professa um determinismo científico, é um resquício cristão. Um libertário moderno é uma contradição com pernas: para abusar da sua liberdade, o libertário necessita de se converter a doutrinas deterministas. O ser humano só se submete aos seus demónios quando acredita ceder a uma espécie de decreto divino.

Para Nozick e para os libertários, “amante da liberdade” é pseudónimo do egoísta.

A liberdade não é um fim em si mesma, mas antes é um meio. Quando os libertários tomam a liberdade como um fim, não sabem o que fazer dela quando a obtém; e é então que se implanta uma tirania qualquer. Entendido como ideal supremo, a liberdade é o primeiro passo em direcção a um niilismo final.

Em Rawls, o determinismo é a ideologia das perversões humanas: as filosofias deterministas pretendem salvar a dignidade humana com ideias e práticas que diluem e esfumam as teses que proclamam. O determinista Rawls atribui à liberdade política um vigor que surpreende um fervoroso partidário do livre-arbítrio. Em boa verdade, a liberdade contemporânea de Rawls não é senão o produto de um ajuste imperfeito entre as peças da maquinaria social tecnocrática.

A Supremacia Branca

grande depressao 1930 web

A grande depressão, 1930, foto de Dorothea Lange

Lisboa 1965 web

Lisboa 1965 (Cais do Sodré), foto de Eduardo Gageiro

A igualdade vs. igualitarismo

Antes de mais, temos que saber o que significa “igualdade”. Vamos colocar a seguinte definição comummente aceite:

“Igualdade é o princípio segundo o qual, os indivíduos no seio de uma comunidade política, devem ser tratados da mesma maneira”.

Esta definição é vaga — porque uma sociedade pode admitir pelo menos dois tipos de igualdade.

  • A igualdade perante a lei, que se opõe aos privilégios arbitrários: este tipo de igualdade baseia-se, em juízo universal, em uma ideia de igualdade natural (jusnaturalismo) entre os homens — o que não significa que todos os cidadãos tenham o mesmo Poder ou as mesmas características, mas que têm todos uma dignidade igual.
  • A igualdade social (Karl Marx). O pensamento marxista acerca da igualdade orienta-se na direcção de um igualitarismo que procura igualar os meios e as condições de existência.

Ora, é à igualdade social, ou igualitarismo, que se refere este texto.

Acerca deste assunto, ler “A Confusão da Igualdade”.


Mesmo na Idade Média, os privilégios concedidos a um personagem poderiam ser-lhe legalmente retirados a qualquer momento (enquanto houve Cortes, ou seja, até D. Pedro II).

Portanto, a ideia segundo a qual “não havia igualdade na Idade Média” é, no mínimo, equívoca. A diferença é que, hoje, os privilégios (da elite) estão catalogados em lei, ao passo que na Idade Média os privilégios dependiam principalmente dos humores das classes superiores (nobreza e clero).

Um sintoma de que Portugal vive hoje em uma emulação do Absolutismo monárquico é, por exemplo, quando o presidente da república considera legítimo o privilégio de conceder ao seu próprio filho a possibilidade de gastar 4 milhões de Euros do erário público, no Serviço Nacional de Saúde, com duas gémeas estrangeiras que adquiriram a nacionalidade portuguesa num prazo de 14 dias. Ora, este privilégio de Marcelo Rebelo de Sousa não consta no catálogo dos privilégios admitidos por lei: trata-se de uma espécie de privilégio de monarca absolutista.

Pobre Portugal. Até os espanhóis nos pedem reparações.

espanha alqueva web

Um dia destes veremos a União Europeia a pedir-nos reparações.

Se o Luís André for eleito, entrego o meu cartão de sócio

O Luís André é um submarino da Quinta Coluna do centralismo lisboeiro. O Luís André representa tudo o que vai contra a história recente do FC Porto: votar no Luís André é uma traição ao clube, devido à guerrilha levada a cabo contra tudo o que tornou o clube grande nas últimas quatro décadas.

luis-andre-web

O Luís André é um parasita: pretende parasitar o sucesso dos verdadeiros portistas que transformaram o FC Porto num dos mais titulados clubes da Europa.

O Luís André afirmou que estava sentado numa “cadeira de sonho”, quando era treinador do FC Porto; mas logo que um outro clube qualquer lhe acenou com dinheiro, deixou a cadeira de sonho e vazou. O Luís André é um “pesetero”.

Tenho mais respeito pelo Mourinho, que nunca disse que ser treinador do FC Porto era a sua “cadeira de sonho”, do que pelo Luís André e os seus apoiantes que se regozijam com as derrotas do FC Porto.

O Luís André é um homem financeiramente falido, que procura no FC Porto a mina de ouro que o vai safar da bancarrota. Alguns portistas apoiam alguém que pretende chular o clube.

Se o Luís André for eleito, entrego o meu cartão de sócio.

O politicamente correcto é, na sua essência, anti-científico

Outro texto escolhido pela professora Helena Serrão, desta vez colocando sibilinamente em causa a indução (na ciência): trata-se, em boa verdade, de uma crítica à generalização.

Vivemos em uma cultura de crítica feroz à generalização, ou seja, nunca cultura estruturalmente anti-científica, por um lado, e por outro lado, numa cultura marcada por um nominalismo radical, em que as pessoas (geralmente) têm dificuldade em categorizar a realidade; uma cultura em que a noção de “juízo universal” está basicamente ausente, ou é negada.

A crítica à generalização, em favor de um nominalismo radical, não é apenas de hoje: é uma manifestação da “velhice do eterno novo” (Fernando Pessoa). Na velha Grécia, Antístenes (o Cínico) dizia que a realidade é sempre individual e que a generalização é uma ilusão.

Antístenes poderia perfeitamente ser militante do Bloco de Esquerda.

Antístenes terá dito a Platão: “Eu vejo um cavalo, mas não vejo a cavalidade”, ao que Platão respondeu: “Porque não tens olhos para vê-la…”

Quando Antístenes dizia que via “um cavalo mas não via a cavalidade”, estava a negar a noção de juízo universal. Uma das características do politicamente correcto actual é a negação radical do juízo universal. A negação do juízo universal é a negação da generalização e da indução, é a negação da ciência.

O que aconteceu, ao longo da História, foi uma sucessão de herdeiros de Antístenes que deixaram de ver a cavalidade para só enxergarem o cavalo, isto é, eles próprios. O nominalismo é o pai do relativismo.

O politicamente correcto, que nos governa actualmente, é, na sua essência, anti-científico. Pretende estupidificar orgulhosamente os povos.