
A América já se rendeu


Segundo depreendi das palavras de André Ventura de ontem, Portugal deverá permanecer na O.T.A.N., mas se um país da organização for atacado pela Rússia, Portugal não terá nada a ver com isso.
Ou seja, segundo Ventura, Portugal está na O.T.A.N.; mas não está na O.T.A.N..
A posição de André Ventura em relação à Ucrânia não é muito diferente da posição de Marine Le Pen, da AfD (Alternative für Deutschland) e de Viktor Órban; e é muito diferente da posição de Giorgia Meloni, por exemplo.
A pequena diferença entre André Ventura, por um lado, e Viktor Órban ou Marine Le Pen por outro lado, é que o primeiro diz que está solidário com a Ucrânia, embora conclua que não está solidário com a Ucrânia — ao passo que os dois últimos dizem que são claramente a favor da Rússia e contra a Ucrânia. A diferença é uma questão de retórica.
A posição do André Ventura em relação à possibilidade de haver tropas europeias da O.T.A.N. na Ucrânia é um NIN: é como o Melhoral, não faz bem nem faz mal.
Nota: O Portugal de Salazar foi neutral na II Guerra Mundial, mas foi antes de entrar na O.T.A.N..
Fugiu à guerra na Ucrânia para ser assassinada nos Estados Unidos.
Donald Trump é um ignorante, em geral. Ortega y Gasset tinha razão acerca da ética pragmatista inventada nos Estados Unidos, e que ainda hoje norteia ignorantes americanos como o Donald Trump.
Em termos de conhecimento da História, Donald Trump é uma nulidade; um zero à esquerda. Donald Trump é intelectualmente sofrível. Provavelmente, o nome de Neville Chamberlain não lhe diz nada: Donald Trump só tem noção do que comeu ontem, e dos peidos que deu hoje.
Em 1938, aconteceu a Conferência de Munique, em que participaram Hitler, Mussolini, o primeiro-ministro francês Édouard Daladier, e o primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain.
Depois da Conferência, Neville Chamberlain solicitou uma audiência a Adolfo Hitler nos seus (deste) aposentos privados, ao que este anuiu com alguma complacência. Nesta audiência, Hitler assinou um papelito encorrilhado que dizia “Acordo Anglo-germânico” com três parágrafos, em que se classificada o Acordo de Munique como sendo “um símbolo do desejo dos nossos povos de não entrar em guerra nunca mais”. E Hitler assinou o papelito sem pestanejar.
Neville Chamberlain quis apaziguar a besta nazi, cedendo à Alemanha 20% do território da Checoslováquia, com o compromisso de Hitler não anexar mais território deste país.
Três meses depois da Conferência de Munique, a Eslováquia transformou-se em um Estado fantoche da Alemanha de Hitler; meio ano depois, toda a Checoslováquia fazia parte do III Reich. Onze meses mais tarde, Hitler invadiu a Polónia e deu início à II Guerra Mundial.
Os paralelismos entre Donald Trump e Neville Chamberlain são evidentes, mas vão para além do óbvio.
Chamberlain tinha a desculpa da recente I Guerra Mundial, e qualquer coisa lhe parecia melhor do enviar meio milhão de jovens para a morte nas trincheiras francesas. Donald Trump não tem essa desculpa. O ignorante americano está disposto a oferecer a Putin 20% do território ucraniano só para satisfazer o seu próprio ego. Neste sentido, Donald Trump é incomparavelmente pior do que Neville Chamberlain.
Não há nenhuma razão militar, geopolítica, ou de qualquer outro tipo que justifique apagar oitenta anos de Direito Internacional.
Putin não respeitou qualquer acordo assinado pela Rússia e por ele próprio, desde a sua chegada ao Poder. Desde o Memorando de Budapeste, não houve nenhum Tratado, Acordo, ou Pacto com Putin que este não tenha limpo o cu utilizando os respectivos papelitos encorrilhados.
Antes e depois da anexação da Crimeia, e antes da invasão do Donbass, a Ucrânia e a Rússia tiveram centenas de encontros e reuniões, cujo resultado final foi a brutal invasão de Putin em 2022.
A verdade é só uma: o expansionismo — seja o de Hitler, seja o de Putin — só se apazigua fazendo-lhe explodir uma bomba nas fuças.
A Europa — entendida como um todo, e não só a Ucrânia — está à mercê de um idiota americano extravagante com menos estaleca intelectual do que um menino do Burkina Fasso.
Os historiadores da Chéquia e da Eslováquia classificam o Acordo de 1938 como “Traição de Munique”. Na Europa actual e na Ucrânia, teremos a “Traição do Alasca” como início de uma repetição da História. Tomara que eu esteja enganado.
Eu fui contra a entrada de Portugal no Euro (2000); assim como fui contra o chamado Acordo Multifibras que meteu a China, um país totalitário e de mão-de-obra escrava, na Organização Mundial de Comércio (OMC), destruindo a economia portuguesa de antanho.
Recordo que a construção do Euro e a entrada da China na OMC é obra da administração americana de Bill Clinton. Quem diz hoje o contrário disto, mente.
Ou seja, Donald Trump mente quando diz que “o Euro foi criado para f*der os Estados Unidos”. Foram os americanos que criaram o Euro (no seguimento da queda do muro de Berlim) e normalizaram o totalitarismo chinês com a entrada deste país na OMC.
Hoje, sou a favor do Euro e da União Europeia, porque os Estados Unidos mudaram de lado: os Estados Unidos de Donald Trump são hoje claramente a favor do regime de Putin e contra as democracias europeias.
Hoje, a Ucrânia e a Europa têm três inimigos formidáveis: a Rússia de Putin, os Estados Unidos de Donald Trump e a China.
Neste contexto, seria estúpido não defender a unidade dos países da União Europeia e o Euro. Donald Trump pretende a nossa miséria e mesmo destruição existencial.
A esmagadora maioria da base do partido CHEGA (simpatizantes) apoia a luta do povo ucraniano contra a invasão de Putin, contra a cumplicidade putinista e expansionista de Viktor Órban, e desaprova o alinhamento claríssimo e irracional de Donald Trump com Putin.
Porém, dentro da estrutura partidária (militantes do partido) do CHEGA, a realidade é diferente.
A nomenklatura do CHEGA divide-se em 1/ apoiantes da Ucrânia e de Zelensky, 2/ apoiantes de Viktor Órban, Putin e de Donald Trump, 3/ e os que se mantêm em silêncio.
Na segunda categoria temos, por exemplo, um anão que foi diplomata e é hoje deputado do CHEGA: é um apoiante claro de Viktor Órban e, concomitantemente, apoiante disfarçado do cripto-comunista revisionista Vladimir Putin.
Outro exemplo é o deputado do CHEGA João Tilly, que não esconde o seu fascínio pelo Viktor Órban e por Putin; mas há mais deste tipo de tropa…!
Dos que mantêm o silêncio nesta matéria estão, por exemplo, Pedro Pinto, Rui Paulo Sousa, André Ventura, Bruno Nunes, Diogo Amorim, entre outros. É um silêncio ensurdecedor.
Dos que apoiam a luta do povo ucraniano pela liberdade estão, por exemplo, a Rita Matias, o Pedro Frazão, Filipe Melo, Rodrigo Taxa, Rui Afonso, Gabriel Mithá Ribeiro, entre outros.
Se eu fosse opositor ao CHEGA, exploraria profusamente esta fraqueza deste partido.
Uma das características da mente revolucionária é a inversão da moral. Trata-se de uma moral teleológica (a de Donald Trump): os fins justificam todos os meios possíveis.
Outra característica do arquétipo mental revolucionário de Donald Trump é a inversão do sujeito-objecto: a culpa dos actos de horror causados pela guerra na Ucrânia, segundo Donald Trump, é das vítimas agredidas (os ucranianos): as vítimas civis da agressão russa não foram assassinadas: antes, suicidaram-se, porque não se submeteram a Putin.
Segundo Donald Trump, a submissão da Ucrânia a Putin teria salvo centenas de milhares de vítimas.
A noção de “liberdade política”, para Donald Trump, é, assim, condicionada pelo pragmatismo — não no sentido vulgar de “pragmatismo”, mas no sentido ideológico do pragmatismo americano que evoluiu a partir do início do século XX.
Donald Trump tentou sacar praticamente todos os recursos físicos da Ucrânia, através da intenção de celebrar um contrato leonino que pretendia o monopólio da exploração das “terras raras” da Ucrânia. Ora, Zelensky não aceitou a proposta americana — não só pelas “terras raras”, mas porque Donald Trump pretendia também o monopólio da exploração de “gás, petróleo, portos e outras infra-estruturas” da Ucrânia.
Mais: Donald Trump pretende ter o controlo privilegiado da compra de licenças sobre minerais exportáveis pela Ucrânia, assim como o controlo das condições contratuais de todos os projectos futuros a realizar na Ucrânia.
A Ucrânia seria, assim, transformada, literalmente, por Donald Trump em uma colónia americana sem um disparo de fuzil.
Entre as exigências de Donald Trump, está o controlo dos depósitos de lítio da Ucrânia, quantificados em cerca de 500 mil toneladas de oxido de lítio.
Outro recurso físico que Donald Trump exige de Zelensky, é o urânio ucraniano: a Ucrânia é o maior produtor europeu de urânio, com 2% da produção mundial e com extracção de 107 mil toneladas que constituem o dobro da extracção americana de urânio.
Outra exigência de Donald Trump é o controlo do grafite ucraniano: a mina de Zavallia, no centro da Ucrânia, é uma das maiores do mundo, e estima-se uma produção anual de 50 mil toneladas de grafite.
Por fim, Donald Trump pretende a exclusividade da exploração de titânio e berílio ucranianos. A Ucrânia é um dos produtores-chave de titânio, que é necessário para a indústria aero-espacial e aplicações médicas. E quanto ao berílio, a Ucrânia tem já uma mina no noroeste do país que é uma das maiores do mundo.
O que é extraordinário é que Donald Trump serve-se da ameaça de Putin para remeter a Ucrânia para uma situação de colónia, no sentido histórico do termo.
Se a Esquerda americana de Joe Biden era má, Donald Trump não é melhor.
A companhia americana de tabaco Philip Morris continua a operar na Rússia — apesar das sanções impostas pelo Congresso americano.
Só em 2022, a Philip Morris pagou ao Estado russo cerca de 5 mil milhões de US Dollars em impostos e, em Março passado, recebeu de Putin o prémio de “Verdadeiro Amigo da Rússia”.
Se fosse o caso da empresa portuguesa Corticeira Amorim vender meia dúzia de rolhas à Rússia, o governo americano enviava imediatamente a CIA. Mas sendo a Philip Morris a furar o bloqueio comercial imposto pelo próprio governo dos Estados Unidos, nada acontece.
São estas inconsistências americanas que aborrecem. Aliás, já vêm de longe: Rockefeller financiou o governo de Estaline, e a empresa de Henry Ford apoiou o movimento político eugenista que influenciou o holocausto nazi, apoiou o isolacionismo americano na I Guerra Mundial, e financiou directamente a Alemanha de Hitler. Tudo isto está documentado.

Até há muito pouco tempo, eu fui um apoiante indefectível de Viktor Órban — mas não tanto do seu (dele) partido político, o Fidesz; mas já não sou.
Eu tenho seguido as opiniões de Viktor Órban nas redes sociais e nos jornais internacionais. As suas (dele) posições políticas actuais são aviltantes e repugnantes.
O envolvimento político / retórico de Orbán na guerra da Ucrânia tem como objectivo:
Podemos aceitar, obviamente, que o Viktor Órban defenda aquilo que ele pensa serem os interesses da Hungria; o que ele não pode fazer — mas não pode mesmo! — é defender os alegados “interesses da Hungria” sacrificando os interesses de outros países — seguindo o exemplo da Rússia de Putin —, nomeadamente os interesses de auto-defesa da Ucrânia.
O que está a acontecer na Hungria de Orbán é extraordinário! — a União Europeia e a NATO deixaram entrar no seu seio uma “Quinta Coluna” de Putin! E Viktor Órban mantém-se activo nas redes sociais, lançando a dúvida sistemática acerca da real legitimidade da defesa da Ucrânia, pedindo para “compreendermos Putin” (sic), afirmando que os Estados Unidos devem sair da NATO — mas nem uma palavra acerca do assassinato de Boris Nemtsov, por exemplo.
Viktor Órban é o branqueador oficial de Putin, uma espécie de “OMO lava mais branco” do regime russo. As atrocidades do regime russo passam ao lado de Orbán, como se não existissem.
Chegou a hora de a União Europeia e a NATO reflectirem acerca do que significa ter a Hungria de Orbán no seu seio; e chegou a altura de o partido CHEGA esclarecer as suas relações com o partido Fidesz de Viktor Órban.
