Entre a Cristina Ferreira e a Isabel Moreira, venha o diabo e escolha

Aconteceu recentemente um confronto político e ideológico entre o liberalismo levado às suas últimas consequências (Cristina Ferreira), por um lado, e por outro lado o cientificismo de Esquerda (Maria João Faustino, Isabel Moreira, etc.).

cristina ferreira web

No liberalismo (representado aqui por Cristina Ferreira), o negócio está em primeiro lugar; o negócio é o mais importante, e independentemente das consequências sociais, culturais e éticas.

O liberal dá valor ao Estado de Direito porque este promove a liberdade de mercado — em contraponto à posição do cidadão conservador que dá valor à liberdade de mercado porque esta promove o Estado de Direito.

O que me separa da Cristina Ferreira é que eu gosto da liberdade de mercado porque promove o Estado de Direito — ao passo que a Cristina Ferreira inverte as premissas da equação: para ela, a liberdade de mercado é um fim em si mesmo, e não apenas um meio. Para a Cristina Ferreira, a liberdade de mercado é mais importante do que o Estado de Direito.

Porém, o grupo de pessoas que se opõe à Cristina Ferreira nesta carta aberta (Maria João Faustino, Isabel Moreira, Francisco Louçã, Marta Crawford, entre outros) não é composto de cidadãos conservadores que prezam a liberdade e o Estado de Direito, mas antes é composto por agentes políticos de Esquerda para-totalitária (passo a redundância) que manipulam a ciência no sentido de impôr coercivamente a sua agenda política e ideológica.

Imaginem, por absurdo, que um grupo de pessoas ligadas à ala radical do Partido Socialista, e ao Bloco de Esquerda, afirma o seguinte:

“A ciência demonstra-nos que os “fassistas” têm que ser mortos”.

E, recorde-se que, em nome da pseudo-ciência já se promoveram os maiores massacres de seres humanos que a História já registou.

É neste sentido que os radicais signatários da referida carta aberta invocam a necessidade de recurso a “especialistas devidamente qualificados” — como se a ciência pudesse formatar a ética, por um lado, e moldar as relações entre os seres humanos, por outro lado: eles representam a morte da ética em nome da imposição da pseudo-ciência como modelo de formação política e ideológica para-totalitária.

Aquilo que é eticamente auto-evidente para um cidadão conservador, passou a ser necessariamente passível de “prova científica” arbitrária, para um radical de Esquerda. A ética foi, alegadamente e para estes radicais, substituída pela ciência (como se isto fosse possível).

A ideia de “responsabilidade moral” (ética) reside na experiência subjectiva, enquanto que a ciência só concebe acções determinadas pelas leis da natureza, e não concebe autonomia, nem sujeito, nem consciência e nem responsabilidade. A noção de “responsabilidade” é não-científica. A ética e a moral pertencem ao domínio da metafísica que se caracteriza pela falta de “bases objectivas”.

Na sua ânsia de combater a fundamentação ética herdada de milénios de cultura europeia (desde Sócrates a Nicolau Hartmann, passando por Santo Agostinho e S. Tomás de Aquino), os radicais de Esquerda do Partido Socialista, do Bloco de Esquerda e do LIVRE pretendem substituir essa fundamentação ética (que se baseia na Natureza Humana) por leis arbitrárias ditas “científicas” que corroborem a necessidade de restrição drástica da liberdade política.

Para que haja ciência é necessário postular a insignificância do universo e da natureza do ser humano — porque a neutralidade axiológica não é uma conclusão científica, mas antes é um postulado metodológico de quem faz ciência.

E é exactamente isto que os radicais de Esquerda pretendem: a manipulação da ciência (cientificismo) como meio de erradicação (na equação da Cultura e na organização social) do conceito de Natureza Humana.

As consequências do liberalismo feminista na política portuguesa

Na primeira metade da primeira década do século XXI, ouvi na rádio TSF a Teresa Caeiro (então uma militante proeminente do partido CDS) afirmar (mutatis mutandis) que “hoje já não existe Esquerda nem existe Direita”.

Era a instauração do relativismo político em Portugal. Seria isto talvez em 2002 ou em 2003, em uma entrevista radiofónica.

Teresa Caeiro fez parte de uma moda política prevalecente naquela época, seguida também por mulheres ditas “de Direita” como Teresa Leal Coelho ou Paula Teixeira da Cruz, que valorizaram romanticamente a pusilanimidade das posições tradicionais de Direita, estas baseadas em uma diferente mundividência em relação à Esquerda marxista ou marxizante.

O relativismo político da Teresa Caeiro (et compagnons de route) baseou-se-se na visão liberal de “Fim da História” de Francis Fukuyama, mundividência esta que se revelou desastrosa para a Direita conservadora em todo o mundo Ocidental, e que deu alento ao neomarxismo sob a forma de Wokismo.

A mundividência liberal — personificada em Portugal por mulheres como Teresa Caeiro, Teresa Leal Coelho ou Paula Teixeira da Cruz — trata diferentemente os seus inimigos: vomita nos da Direita conservadora, e tenta absorver os da Esquerda.

O resultado está a vista, para quem quiser ver: o liberalismo resultou desfavorável à liberdade porque ignorou as restrições que a liberdade deve impôr a si mesma para não se auto-destruir.

Na esteira dessas mulheres ditas “liberais”, surgiram posteriormente a Assunção Cristas (que obedecia caninamente às ordens públicas da socialista Isabel Moreira), em primeiro lugar, e depois e recentemente a Mariana Leitão. Todas as mulheres citadas (e as outras mulheres “liberais”, em geral) são o exemplo da tentativa de absorver a Esquerda, ao mesmo tempo que diabolizavam a Direita tradicional.

Depois de ouvir a Teresa Caeiro na TSF, compreendi que o CDS passou a “fechar a Esquerda à direita” (o CDS passou a ser o partido da Esquerda mais à direita), por um lado, e, por outro lado, passei a ser muito céptico em relação ao papel das mulheres na política — cepticismo esse que mantenho até hoje.

Um liberal é pior do que um comunista

Chateia-me que alguém publique um texto num blogue, e não o comente — como quem diz: “não confirmo, nem desminto”; “com um vestido preto, não me comprometo!”, como dizia a saudosa Ivone Silva.

Não há dúvidas (absolutamente nenhumas!) de que Hitler era socialista — embora não fosse marxista.

Quem estudou a História do século XIX sabe que o marxismo é um forma tardia de socialismo: o socialismo francês do século XIX teve várias tendências — por exemplo, com Jean Jaurés, ou com Proudhon, ou Saint-Simon — e uma delas foi a de Fourier ou também a de Cabet.

Adolfo Hitler foi, stricto sensu, um revolucionário (ver “mente revolucionária”); ficou célebre a fase dele, proferida num comício: “Alles muss Anderes sein !” (Tudo tem que ser diferente!). Neste aspecto, Hitler não se distingue de Lenine, por exemplo: pretendiam ambos a alteração do fundamento da Natureza Humana, que é imutável.

Todo o revolucionário pretende mudar a Natureza Humana, num sentido ou noutro. Afirmar que “Hitler foi um conservador”, é um absurdo!

Nesta outra posta, o escriba escreveu acerca de Donald Trump:

“Politicamente é um conservador nacionalista; economicamente um proteccionista; Não respeita a Ordem Internacional Liberal, nem tem consideração pela globalização, defendendo abertamente políticas expansionistas (quasi imperialistas) que desrespeitam a soberania e as fronteiras de outros países;” — e as asneiras continuam prolixamente.

Victor Davis Hanson explica aqui a motivação de Trump: “Trump and ‘The Art’ of the ‘Troll’”. Donald Trump é um troller. A ideia de que “Donald Trump pretende engordar o Estado”, só pode vir de uma mente liberal.

Um liberal é pior do que um comunista: pelo menos, este último não engana ninguém.

A espertalhona “liberal” Adriana Cardoso diz que “a Ideologia de Género não existe”

Uma gajinha tira um cursinho de merda de 3 anos de duração, tem uma carinha larocas e é “muito dada ao Macho Alfa”, e passa a ter (tomaticamente) um alvará de inteligente; passa a ser espertalhona. E é este tipo de gentinha feminista que milita no IL [Iniciativa Liberal], e defende a meritocracia liberal dos espertalhões que chulam o Estado.

Como diz o povo: “Quem tem uma c*na tem uma mina; quem tem uma p*ça tem um c*r*lho”.

É o caso de uma tal Adriana Cardoso, que afirmou o seguinte no canal do Chico dos Porsches:

« “Ideologia de género” não existe. É um termo cunhado pela extrema-direita americana. A escola pública não é neutra em questões de direitos humanos. »

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Quando é o Estado chinês a violar os preceitos “liberais” e “humanitários”, os “liberais” metem a viola no saco

Eu não sou apologista de um Estado forte — embora por razões diferentes das invocadas pelo Telmo A. Fernandes. A política sábia é a arte de fortalecer a sociedade civil, e (por isso) de debilitar o Estado.

O Telmo A. Fernandes sustém a narrativa do “pensamento mágico” (a fé metastática) da “mão invisível”. A habilidade do Homem-de-Estado liberal, considerado “inteligente”, reduz-se à aproximação, o mais lentamente possível, da previsível catástrofe social. Enquanto a catástrofe, que se adivinha, se vai adiando, o liberal vai defendendo o conceito da “mão invisível” na economia — até que a merda atinja a ventoinha.

A China impõe tarifas aduaneiras ao Ocidente, mas eu nunca vi o Telmo A. Fernandes comentar este assunto; o Donald Trump impõe tarifas aduaneiras à China, e o Telmo rasga as vestes. O défice comercial entre os Estados Unidos e a China foi negativo, para os americanos, em cerca de 400 mil milhões de Euros em 2017.

O critério “liberal” do Telmo não é biunívoco; quando é a China a violar os preceitos “liberais” e humanitários, o Telmo mete a viola no saco. Por isso é que a criatura “liberal” é intrinsecamente de Esquerda.

Aliás, todo o mundo hoje é de Esquerda (que alívio !!!!!).

A “Direita” liberal do nosso tempo não é mais do que uma Esquerda de outro tempo, mas desejosa de digerir em paz.

Tal como acontece com a Esquerda, a “Direita” liberal nunca atribui o seu fracasso a erros de diagnóstico, mas antes à (alegada) perversidade dos factos — e o esquerdista típico nega-se, peremptória- e obviamente, a reconhecer que as conclusões do pensamento burguês-liberal são os princípios do próprio pensamento da Esquerda.

A elite “liberal” — a tal dos negócios contratualizados sem ética — escreve hoje as partituras musicais da sua propaganda baseando-se em temas da Esquerda.

Salazar foi um conservador (da sardinha).

A Cristina Miranda escreve aqui acerca do “fascismo”; o problema do texto, é que dele se pode inferir que o patriotismo / nacionalismo é um fenómeno político de Esquerda.

«Enquanto o marxismo mobiliza as pessoas com base apenas na sua classe, o fascismo mobiliza apelando às suas identidades nacionais e classes. Segundo ele, toda a acção privada devia ser orientada para servir a sociedade. Nesta ideologia não há distinção entre interesse privado e público pois o braço administrativo da sociedade é o Estado. Mussolini resumiu esta ideologia numa frase: “Tudo no Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado” ».

Deste trecho, do texto da Cristina Miranda, pode-se inferir que

1/ quem apele à identidade e à união nacional, é “fassista”;
2/ quem é “fassista”, é de Esquerda;
3/ quem é patriota ou nacionalista, para além de “fassista”, é de Esquerda;
4/ só não é “fassista” quem defende um tipo de globalismo controlado por uma plutocracia internacional aliada ao caciquismo local do marxismo cultural internacionalista;
5/ quem é patriota / nacionalista, é “estatista” (o braço administrativo da sociedade é o Estado) porque defende o absolutismo do Estado.

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Eu vivi durante o Estado Novo, embora muito moço. E poderia aqui assegurar, por A+B e por experiência própria, que Salazar não era de Esquerda.

A confusão começa quando não definimos “Esquerda” e “Direita(ver link).

As noções de Esquerda e de Direita são relativamente recentes: nasceram da Revolução Francesa e do jacobinismo; mas a noção e o conceito de “Estado” já vem de Aristóteles.

Não devemos associar o Estado à Esquerda, e a ausência do Estado à Direitacomo se pode inferir do texto da Cristina Miranda —, até porque um dos partidos que mais necessita do Estado para cumprir os seus desígnios ideológicos, é a IL [Iniciativa Liberal].

Os liberais, como é o caso da Cristina Miranda, só são “liberais” de nome, porque recusam (na linha de Rousseau) a predominância e a importância social das instituições intermediárias entre o indivíduo e o Estado. A atomização da sociedade é um desígnio ideológico liberal.

Aliás, esta recusa da predominância e a importância social das instituições intermediárias entre o indivíduo e o Estado também é uma característica do jacobinismo e, posteriormente, do marxismo. Um liberal é um revolucionário, uma vergôntea do jacobinismo.

Os liberais começaram por chamar de “democráticas” às instituições liberais, e acabaram por chamar de “liberais” às actuais servidões democráticas.

“Rousseau é o pai do movimento romântico iniciador do sistema que infere, de emoções humanas, factos não-humanos, e inventor da filosofia política de ditaduras pseudo-democráticas como opostas a monarquias absolutas. Desde então, os que se julgavam reformadores ou o seguiam a ele, ou seguiam ou seguiam Locke. Às vezes cooperavam e muitos não viam incompatibilidade, que se tornou pouco a pouco evidente. Hitler é vergôntea de Rousseau; Roosevelt e Churchill, de Locke.”

Bertrand Russell, “História da Filosofia Ocidental”, página 627; Livros Horizonte Lda., Lisboa, 1966

A atomização da sociedade é defendida pelos liberais (IL [Iniciativa Liberal]) e pelos libertários de Esquerda (Bloco de Esquerda), embora por razões distintas.

“Isto significa, nada menos, do que [o Estado] obrigá-lo [ao cidadão] a ser livre” (Rousseau).

Segundo Rousseau (e mais tarde, Hegel), a liberdade é o direito de obedecer à polícia.

Esta é a visão actual do liberalismo globalista da IL [Iniciativa Liberal] — e por isso é que a IL [Iniciativa Liberal] é um partido bem-visto pelos me®dia e pelas elites [ruling class] em Portugal.

“Se quando o povo, bem informado, toma deliberações, e os cidadãos não comunicam entre si, a soma das pequenas diferenças daria sempre a vontade geral e a decisão seria boa” — Rousseau

Desta proposição de Rousseau podemos inferir que todas as opiniões políticas são comandadas pelo simples interesse, que se divide em duas partes: por um lado, o interesse do indivíduo (IL [Iniciativa Liberal]), e por outro lado, o interesse comum que anula os interesses dos indivíduos entendidos enquanto indivíduos (Bloco de Esquerda). O que resulta da anulação do interesse comum em relação ao interesses individuais, é a “Vontade Geral”.

Escreve Bertrand Russell (idem, página 639):

«Segundo Rousseau, o que na prática interfere com a expressão da vontade geral é a existência de associações subordinadas dentro do Estado. Cada uma quer ter a sua vontade geral, que pode ser oposta à da comunidade como todo. “Pode dizer-se que não há tantos pareceres como homens, mas há tantos como associações”. A consequência é importante: “É portanto essencial, se a vontade geral pode exprimir-se, que não haja sociedades parciais dentro do Estado, e cada cidadão pense apenas por si; tal é o sublime e único sistema estabelecido pelo grande Licurgo”. Em nota, Rousseau apoia-se em Maquiavel. »

A guerra ao associativismo na sociedade (a defesa do atomismo social) é uma característica tanto dos “liberais” da IL [Iniciativa Liberal] como dos “libertários” do Bloco de Esquerda. Estes dois partidos são uma imagem espelhada (de um e doutro).


“Ele há dois tipos de conservador: o conservador da lata e o conservador da sardinha.”
→ Agostinho da Silva

Salazar foi um conservador da sardinha.

Torna-se difícil escrever

Ainda há poucos anos, aparecia, de vez em quando, um anormal; hoje, a anormalidade é a regra.

Ora, nas actuais circunstâncias, em que quase tudo é anormal, é praticamente impossível escrever acerca da anormalidade.

diogo-faro-web

agir-webTodas as épocas exibem os mesmos vícios; mas nem todas mostram as mesmas virtudes: em todos os tempos há tugúrios, mas os palácios estão reservados apenas para algumas épocas.

Vivemos em um tempo de tugúrios morais, onde até os palácios se transformaram em fojos.

Torna-se difícil distinguir o humano, da besta. As próprias instituições tornaram-se paulatinamente irracionais — a começar pela Igreja Católica, por exemplo, quando ouvimos um recém cardeal português afirmar que “a Igreja não pretende converter os jovens”… ou quando ouvimos um primeiro-ministro dizer que “os portugueses nunca viveram tão bem como hoje”, negando assim a realidade imposta pelos factos… hoje, os factos são um instrumento de poética pessoana aplicada à política; para a classe política, em geral, não há factos: apenas há interpretações de factos — e “como vivemos em democracia, cada um interpreta os factos como quiser!”


«Narrar é enganar-se, porque narrar repousa sobre factos; e não há factos, mas apenas impressões. Certos argumentos são bem feitos; é isso que é verdade.

Não há factos, só interpretações de factos. Quem narra factos, só pode ter a certeza de que corre o risco de errar nos casos, no que narrou, e na maneira de o narrar. Quem só interpreta, dispensa um dos riscos. Certos argumentos são bem feitos, porque os factos são apenas os argumentos.»

Fernando Pessoa (“O Sentido do Sidonismo”)


o cardeal de merda webEsta ambiência, de confusão acerca dos factos, foi propositadamente criada pelas elites contemporâneas, porque sabem que o homem vulgar admira mais o que é confuso do que aquilo que é complexo. Estamos em presença de puro trabalho do Demo.

 aquecimento global assintomatico web

Essa é uma das razões por que a classe política vem eliminando a matemática do currículo escolar. O cidadão anódino mistura “confusão” e “complexidade”: as ideias confusas (propaladas pelas elites, como por exemplo o conceito de “CO2 como gás perigoso”) e as águas turvas parecem, ao vulgo humano, ser profundas.

Ora, neste ambiente [cultural, político] irracionalizado torna-se difícil exercer o nosso sentido crítico — porque teríamos que criticar quase tudo e, neste contexto, a crítica deixa de fazer sentido.

A quem pergunte, angustiado: ¿o que te calha escrever hoje? — respondamos, com probidade, que hoje só nos cabe (a nós, todos) uma lucidez impotente. O pensamento que reage à irracionalidade institucionalizada é impotente, embora lúcido: para quem parece ser incapaz de renunciar à análise do absurdo, aquele que renuncia parece-lhe impotente.

A “neutralidade liberal” é uma grande treta, a maior aldrabice da modernidade

“Também como Rawls, Nozick termina seu livro representando a sociedade justa como moralmente libertária ao extremo, negando implicitamente a legitimidade de leis que proíbem práticas como a prostituição e a venda de drogas viciantes.”

Uma aproximação do pensamento de Nozick a Rawls.


alianca liberal webRecentemente, o liberal Carlos Guimarães Pinto (do partido IL [Iniciativa Liberal]) escreveu no Twitter que, em Portugal, os imigrantes indostânicos condutores de táxis (TVDE) não deveriam ser obrigados a falar a língua portuguesa. Ou seja: para o Carlos Guimarães Pinto, “os portugueses que se f*dam!”

Temos aqui um exemplo de uma pretensa “neutralidade” do Estado liberal que age em nome de uma alegada defesa da liberdade individual — uma “liberdade individual” radical que provoca, na sociedade, uma anomia e uma atomização social que, mais tarde, conduzirá inexoravelmente a uma qualquer formação de massa totalitária (Hannah Arendt).

neutralidade-liberal-webEm uma sociedade em que não exista um paradigma maioritária- e geralmente aceite do que é a “vida boa” (vida boa = postulado de orientação ética e moral, e de sentido de vida) que oriente o indivíduo e o colectivo, só lhe resta a busca frenética pelo interesse próprio e um utilitarismo exacerbado. Rawls (liberal de esquerda) e Nozick (libertário de direita) são defensores deste tipo de sociedade. O Carlos Guimarães Pinto obedece caninamente ao último dos dois.

Mas esta neutralidade ética e moral dos liberais e dos libertários é uma treta — como bem demonstraram MacIntyre e Sandel. A invocação (liberal) de neutralidade ética e moral do Estado é uma forma que os liberais encontraram de colocar em causa a legitimidade de um determinado paradigma cultural (clássico), na tentativa de impôr à sociedade um outro paradigma cultural, diferente mas disruptivo, e em nome de uma determinada concepção de “progresso” — uma concepção ideológica romântica da História que entende o progresso como uma lei da Natureza.

Neste contexto, o Estado liberal também não é eticamente neutro. Por exemplo, Michael Sandel [“Liberalism and the Limits of Justice”] defende a ideia de que o Estado não deve intervir no tema do aborto se se demonstrar ser verdadeira a doutrina moral que concebe o aborto como um assassínio. Ou seja, a neutralidade do Estado acerca do aborto só é admissível se se demonstrar que o aborto não é um assassínio e, por conseguinte, neste contexto o Estado deverá deixar o indivíduo exercer o direito ao aborto.

Esta aparente neutralidade do Estado liberal/libertário em relação a um paradigma clássico de “vida boa” é liberticida, embora agindo paradoxalmente em nome da liberdade — porque ignora as restrições que a liberdade deve impôr a si própria para não se auto-destruir. Por exemplo, a mentalidade liberal igualitarista da socialista Isabel Moreira nunca entenderá que os horrores modernos que a ela repugnam são o [lado do] avesso das falácias que ela admira.

O liberalismo actual é liberticida, mas em nome da “liberdade”

John Rawls foi o precursor da versão igualitarista do liberalismo que influenciou os partidos socialistas ditos “democráticos”; mas também influenciou partidos ditos “liberais” que se dizem de Direita apenas porque defendem a propriedade privada (como é o caso do IL [Iniciativa Liberal]).

Haveria que distinguir entre liberais clássicos, por um lado, e libertários e utilitaristas, por outro lado; mas esta distinção raramente é feita.


Este artigo da professora Helena Serrão (ver ficheiro PDF), que cita John Rawls, aborda as teses deste último em relação aos conceitos de “processo contratual” da abordagem contratualista igualitarista.

Para os ditos “liberais” (mas também para os “libertários” e utilitaristas), não existe uma concepção pré-estabelecida de “vida boa” ou de “melhor sociedade”; não existe — como existe na filosofia política tradicional desde os socráticos — uma optimização de um “fim ideal da existência individual” (nem da existência comum dos seres humanos que implica uma noção de “Bem”).

Para os “liberais”, e libertários utilitaristas, a sociedade é reduzida a uma estrutura de cooperação entre pessoas que podem ter concepções diferentes do que é uma “vida boa” (felicidade) e de tal forma que as posições individuais podem ser absolutamente irreconciliáveis mas todas elas, em princípio, consideradas legítimas.

Tal como os libertários, John Rawls defende a ideia segundo a qual um qualquer princípio de coexistência que seja racionalmente defensável (independentemente de qualquer concepção substantiva) deverá ser considerado “justo”. Esse princípio de coexistência, qualquer que seja desde que seja “racional”, é reduzido a uma espécie de mecanismo que permite organizar as vidinhas das mais abstrusas idiossincrasias individuais.

É dentro desta visão “liberal”, por um lado, e “libertária” e utilitarista, por outro lado, que se situa a “estrutura de cooperação”, em que vemos, por exemplo, a Isabel Moreira (certamente seguidora de John Rawls) a defender o aborto, a eutanásia, a adopção de crianças por pares de invertidos, a Ideologia de Género, e não tarda nada, a legalização da pedofilia: tudo se reduz a um “processo contratual” entre partes, sendo que a idade de decisão e responsabilização das “partes” (em algumas áreas, por exemplo, na autonomia sexual) pode ser reduzida por processo de promulgação do Direito Positivo, por exemplo, para os 10 ou 11 anos de idade, ou até menos.

As opiniões liberais, libertárias e utilitaristas, e ditas “progressistas” (como se o progresso fosse uma lei da natureza), galopam pela História deixando um rastro de civilizações em chamas. Numa sociedade, como a actual, onde prosperam os actos mais aberrantes — o terrorismo, por exemplo —, o liberal e o libertário rendem-lhes homenagem em nome da “liberdade de consciência”.

O libertarismo e o liberalismo são liberticidas, mas em nome da “liberdade”.

Para os liberais e libertários utilitaristas, não existe “bem” se não for “justo”. Para eles, o “bem” é sinónimo de “justo”; as duas noções são coincidentes; não há “bem” independente do “justo”. O problema, aqui, é chegarmos a um acordo sobre o que é o “justo” para, depois, daí deduzir o “bem”. É neste contexto de interrogação sobre o “justo” na estrutura de cooperação entre indivíduos (processo contratual) que John Rawls escreveu o texto publicado pela professora Helena Serrão.

O liberalismo igualitarista actual (Isabel Moreira, PS da ala Esquerda, Bloco de Esquerda) não acabou com os ricos: apenas suprimiu os ricos decentes. Hoje, a sociopatia é um dos requisitos fundamentais do candidato a rico na sociedade dita “liberal”.


Para os “conservadores”, o “justo” e o “bem” são conceitos diferenciados (não se confundem), por um lado, e o “bem” é considerado um valor superior ao “justo”, por outro lado.

Ademais, (segundo os “conservadores”) os princípios que organizam uma sociedade não podem ser neutros em relação ao conceito de “bem”: ou seja, a sociedade não se pode organizar correctamente se partir do princípio de que o “bem” é o que cada indivíduo quiser que seja, limitado apenas pela lei que pode ser revogada e/ou revista ao sabor das modas. Para os “conservadores”, a vida social deve promover o “bem comum”, e não apenas satisfazer as idiossincrasias mais desviantes e mesmo aberrantes de personalidades das mais abstrusas.

Enquanto os liberais e libertários utilitaristas têm uma visão presentista da sociedade (o desligamento em relação ao passado histórico), os “conservadores” insistem no facto insofismável de que as próprias concepções individuais de “vida boa” (felicidade) não podem ser separadas das raízes individuais num contexto social que tem uma história que condiciona inexoravelmente as soluções que podemos dar aos problemas morais, e por maioria de razão, aos problemas da justiça distributiva.

Se seguirmos as ideias liberais, libertárias e utilitaristas, em toda a linha e até às suas últimas consequências, verificamos que não há nenhuma razão para que a pedofilia não venha a ser legalizada no futuro do Ocidente, dependendo apenas do “progresso da opinião pública” (Karl Popper), uma vez que as leis mais desumanas podem apenas depender da aquiescência, activa ou passiva, dos membros da comunidade (não há, a priori, uma noção comum e pública de “bem” baseada na tradição e na História).

É assim que o “justo”, do liberal e do libertário, coincide com o “bem”: depende apenas da janela de Overton, a cada momento da História, legalizar (mediante o processo contratual e a estrutura de cooperação) o que de mais monstruoso existe no ser humano (tal como aconteceu na Alemanha de 1933).

Duvidar do progressista é o único progresso

Segundo os progressistas, o conceito de “liberdade” é próprio da “extrema-direita”; ou seja, quem clama por liberdade, é fassista.

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O progressista actual, que se preze, luta contra a liberdade — contra a “liberdade política”, segundo o conceito de Hannah Arendt.

“Só um fassista inclui a liberdade política no seu ideário” — dizem os progressistas. “A liberdade é um valor fassista”.

Não tarda muito e veremos também o partido IL (Iniciativa Liberal) a afirmar peremptoriamente (já o faz de forma velada, imitando o Bloco de Esquerda) a negação da liberdade política, em nome do progresso. O “libertarismo” do IL (Iniciativa Liberal) é autoritarista, não admite correntes internas.

O progresso imbeciliza o progressista do IL (Iniciativa Liberal), de um modo tal, que o torna incapaz de ver a imbecilidade do progresso.

Segundo os progressistas, o progresso é a antítese da liberdade. A humanidade constata, com horror, que o progresso se vai tornando incurável.

Dizem eles que “não é possível ser progressista e, simultaneamente, defender a liberdade”: progresso e liberdade são (alegadamente) noções contraditórias.

Mais repulsivo do que o futuro que os progressistas involuntariamente preparam, é o futuro com que sonham: um totalitarismo a nível global.

É neste contexto, por exemplo, que os progressistas portugueses criam um novo Bilhete de Identidade (Cartão de Cidadão) com informações biométricas incrustadas — o precursor do sistema de Crédito Social chinês. O futuro preconizado pelos progressistas é uma emulação do totalitarismo chinês.

Duvidar do progressista é o único progresso.