Desidério Murcho: a narrativa da “eutanásia para todos, em nome da liberdade”

O Desidério Murcho escreveu aqui uma coisa a favor da liberalização da eutanásia.

O tipo de argumentação é sempre o mesmo: vai-se buscar um ou dois exemplos extremos de casos que não sejam passíveis de tratamento médico ou de cuidados paliativos, para depois — em cima desses dois exemplos extraordinariamente raros mas cuidadosamente escolhidos — construir a narrativa da “eutanásia para todos em nome da liberdade”.

“É a constituição moral da sociedade que fixa, a cada momento, o contingente dos mortos voluntários.” → Durkheim

1/ Em primeiro lugar, o mais surpreendente é que o Desidério Murcho defenda a eutanásia aplicada pelo Estado; o Estado passa a aplicar a pena-de-morte alegadamente consentida.

Temos um caso, na Bélgica, de um multi-homicida condenado a pena de prisão perpétua que solicitou (voluntariamente!) a eutanásia; e parece que o Estado belga está aberto a matar um homem que tinha anteriormente condenado à prisão perpétua. Ou seja, as bases do próprio sistema judicial ocidental começam a vacilar.

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As asneiras acientíficas do Carlos M. Fernandes

Cita-se aqui um tal Carlos M. Fernandes, a propósito do conceito de “verdade”, em ciência:

“A ciência é o artefacto sistematizado da curiosidade humana. Como tal, está em permanente dialéctica com a ignorância, alimentando-se da dúvida, da incerteza, do risco, e, sobretudo, da liberdade de pensamento. Conceitos como consenso, autoridade e verdade, são-lhe estranhos. O conhecimento científico, «qual pluma al vento», é volúvel e entre as suas funções não se encontra a formulação de juízos metafísicos.”

Vou tentar ser o mais afável e simpático possível com o Fernandes, neste meu comentário.


Em ciência, o conceito de “verdade” faz parte do método científico (faz parte da ciência) — ao contrário do que diz aquele senhor. O que não existe, em ciência, é o conceito de “certeza — este sim, faz parte do cientismo ou da fé religiosa —; mas, ainda assim, podemos citar aqui (metaforicamente) o físico francês Roland Omnès:

“A fé do cientista é a maior que existe, porque é inconfessável.”

Por vezes pergunto-me ¿por que razão há gente (como o Fernandes) por aí a “ditar filosofia” sem a necessária preparação para tal?!

A “verdade” é a definição das condições gerais do “verdadeiro” — sendo que o “verdadeiro” (em ciência) diz respeito apenas aos domínios do conhecimento, e difere radicalmente dos outros objectos dos juízos de valor, na medida em que está determinado fixá-lo antes dos juízos e de uma forma vaga e não estruturada.


Outra asneira do Fernandes é a ideia segundo a qual a ciência não tem nada a ver com a metafísica:

“O conhecimento científico, «qual pluma al vento», é volúvel e entre as suas funções não se encontra a formulação de juízos metafísicos.”

O que o Fernandes diz é que “tudo aquilo que não é passível de ser verificado empiricamente (passo a redundância) não tem significado, em ciência”. Porém, a proposição “aquilo que não é passível de ser verificado empiricamente, não tem significado” não é, ela própria, verificável.

Isto significa que a ciência parte de um axioma metafísico (de uma espécie de dogma), por um lado, e por outro lado, verificamos que, em qualquer circunstância, a negação da metafísica é sempre uma forma de metafísica.


Aconselho o Carlos M. Fernandes a dedicar-se à pesca.

O Homem-Massa no século XXI

Um livro que deveria ser obrigatório ler no liceu (vamos pugnar pelo retorno dos liceus, que o politicamente correcto e o nacional-porreirismo abrilista aniquilou) — seja na disciplina de Filosofia ou na de Língua Portuguesa — é a “Rebelião das Massas” (1929) do filósofo Ortega y Gasset.

homem-massa-webO meu filho mais novo é doutorado em Bioquímica por uma prestigiada universidade do mundo anglo-saxónico. Eu digo-lhe, insistentemente: “tens que complementar a especialização, por um lado, com a aprendizagem (nos tempos livres) das artes tradicionais e/ou das disciplinas das Humanidades, por outro lado.”

Umas das críticas feitas por Ortega y Gasset (partilhada também por Patrick J. Deneen no seu livro “Why Liberalism Failed“) é a crítica do monopólio da especialização — repito e sublinho: monopólio; porque “especialistas” sempre os houve — a que Gasset chamou de “Barbárie da Especialização” inerente a uma “Era da Auto-satisfação”.

A “Era da Auto-satisfação” e da “Barbárie da Especialização” (sic) é o tempo moderno das economias de abundância, que gerou gentinha da estirpe da Maria João Marques, a que se refere aqui o José da Porta da Loja. Esse tipo de gentinha é o que Ortega y Gasset chamou de “Homem-Massa”.

A Maria João Marques é o avesso do radicalismo esquerdopata; mas faz parte da mesma teia e trama cultural que gerou o Homem-Massa que “nunca tem dúvidas e raramente se engana” (ao Cavaco Silva, faltou-lhe o liceu) — a minha primeira crítica (civilizada) às ideias da Maria João Marques teve como consequência imediata o bloqueio no Twitter; aquela triste criatura não admite quaisquer críticas.


O Homem-Massa possui a psicologia de uma criança mimada e exibe um sentimento superioridade em relação a quem ouse contrariá-lo: tem um ego do tamanho do universo — mas o seu ego mantém-se a um nível infantil de desenvolvimento —, ao mesmo tempo que despreza os aspectos hierárquicos da sociedade, da Natureza e da cultura; e todas as instituições da sociedade são concebidas (pelo Homem-Massa) à sua precária medida (o Homem-Massa é um sofista moderno, uma espécie de Protágoras de Abdera, mas com inteligência inferior): segundo o Homem-Massa, as instituições deixaram de ter valor em si mesmas, porque são todas (igualmente) equivalentes, e porque “o homem é a medida de todas as coisas”.

O Homem-Massa está isento de restrições — esta ausência de restrições advém (não só, mas também) do preceito cultural segundo o qual “Letras são Tretas” que é assimilado nas Multiversidades (as Universidades já não existem). As “Letras são Tretas” geraram um vazio epistemológico no Homem-Massa (uma ausência de uma perspectiva histórica do conhecimento), uma ignorância acerca do passado histórico, e mais: até mesmo um desprezo por esse passado histórico aliado a uma egologia eternamente presentista.

culto-do-corpo-webO actual narcisismo exacerbado – e pior!: o culto do narcisismo!: quem não é notoriamente narcisista é desprezado pela cultura do Homem-Massa — é característico da “Era da Auto-satisfação” que alimenta a ideia endógena segundo a qual “a vida é coisa fácil e sem grandes limitações” que leva o Homem-Massa a fechar-se em relação a qualquer juízo crítico sério; e uma tendência culturalmente ingénita de impôr as suas ideias triviais e sem qualquer respeito pelas ideias dos outros. Esta vulgaridade é característica do “barbarismo espiritual” (sic) da “Barbárie da Especialização”.

O Homem-Massa acredita que a Matéria é a única realidade, por um lado, e por outro lado é adepto exclusivo do “culto do corpo”; prefere viver sob um regime que não privilegie a discussão livre — e vem daqui o fechamento em relação a qualquer juízo crítico (o Homem-Massa prefere a supressão do debate de ideias, em nome da supremacia de uma putativa “especialização”).

O Homem-Massa caminha a passos largos para a sua morte espiritual, ao mesmo tempo que frequenta freneticamente ginásios e clínicas médicas para tentar adiar a sua morte biológica.

O Homem-Massa desconhece (ou despreza) a literatura anterior ao século XX.

As grandes obras literárias (Cervantes, Shakespeare, Camões, etc.) são anti-utopias, porque acentuam as falhas humanas e demonstram a tendência inevitável do ser humano para a tragédia (o Homem-Massa ignora a categoria do “trágico”, o que o transforma em um neurótico permanente). Pelo contrário!: o Homem-Massa ignora (ou nega mesmo) a existência da Natureza Humana. E assim a literatura clássica foi praticamente banida das Multiversidades, em nome da “Barbárie da Especialização” .

Com o advento do Homem-Massa, a noção de “ser humano” foi reduzida a aspectos físicos comezinhos, como a genitália e a cor da pele (e ao feminismo estupidificante e radical da Maria João Marques). Na Era da Especialização, o Homem-Massa convenceu-se de que “eu é que sei!” (a dúvida socrática desapareceu da nossa cultura intelectual), adoptando um isolamento epistemológico e uma certeza moral invioláveis.

Os factos são intersubjectivos, e não propriamente “objectivos”

A professora Helena Serrão transcreve aqui um texto que é uma logomaquia, ou, melhor dizendo talvez, um texto que pretende negar tudo, afirmando contudo o que se pretende.

No referido texto (da autoria de um tal David Wootton, ver em PDF), tergiversa-se sobre o conceito de “facto”.


A palavra “facto” vem do latim factum, que significa “aquilo que está feito” — o que contradiz (pelo menos, em parte) a noção expressa no referido texto segundo a qual não existia, no advento da modernidade e no latim, uma palavra que significasse “facto”. O que não existia, na Idade Média, era o conceito  enviesado de “facto” que existe hoje — senão vejamos o que pensa o Fernando Pessoa acerca do conceito de “facto”:

«Narrar é enganar-se, porque narrar repousa sobre factos; e não há factos, mas apenas impressões. Certos argumentos são bem feitos; é isso que é verdade.

Não há factos, só interpretações de factos. Quem narra factos, só pode ter a certeza de que corre o risco de errar nos casos, no que narrou, e na maneira de o narrar. Quem só interpreta, dispensa um dos riscos. Certos argumentos são bem feitos, porque os factos são apenas os argumentos.»

→ Fernando Pessoa (“O Sentido do Sidonismo”)

Quando Fernando Pessoa diz que “não há factos, só interpretações de factos”, entra em um circulo vicioso “contraditório” (o que é próprio do poeta: a poesia é filosofia desprovida de lógica) — porque se não há factos, não podem existir “interpretações de factos” (interpretações daquilo que não existe).


A definição comum de “facto” é a seguinte: “um facto é um dado da experiência, com o qual o pensamento pode contar”.



1/ A ideia de “facto” como “um dado da experiência” corrobora a ideia de Fernando Pessoa segundo a qual “o facto é uma impressão”.

olhos-de-sapo-webSenão, vejamos qual é a experiência, por exemplo, de um sapo face à realidade dele: este batráquio só come uma mosca (que esteja ao seu alcance físico) se esta estiver em movimento: se a mosca estiver imóvel, o sapo não a vê, e por isso não a pode comer. O mundo do sapo está limitado àquilo que mexe; e tudo que está imóvel faz parte de uma realidade que é indistinta para ele.

O ser humano moderno, adepto incondicional da ciência, afirma que o ser humano é diferente do sapo — no sentido em que as percepções humanas (ao contrário do que acontece com o sapo) são absolutas, na medida em que (alegadamente) as percepções humanas (os tais dados da experiência) abrangem a realidade inteira: para o ser humano moderno, não existe uma realidade indistinta (à semelhança do sapo), que seja inacessível ao ser humano, alegadamente porque “a ciência baseia-se em factos”.

Para o ser humano moderno, os factos que ele constata e/ou verifica (factos entendidos como alegados “dados da experiência”) formam a única realidade concebível — tal como os objectos em movimento fazem parte da única realidade concebível pelo sapo.

 Em bom rigor, o ser humano moderno em pouco se diferencia do sapo.

Na tradição de Kant, Karl Popper denunciou o culto empiricista da ciência. Não cabe agora aqui falar da oposição de Kant ao empirismo de Hume.

2/ Os professores de filosofia (como é o caso da Helena Serrão) ignoram completamente a filosofia quântica —, talvez por conveniência ideológica. Ignoram porque não sabem, ou ignoram porque não querem que se saiba.

Se tivermos em consideração a mecânica quântica, o “facto” — o da Helena Serrão e o do tal David Wootton — torna-se translúcido.

Ora, a mecânica quântica faz parte da ciência: ou seja, é a própria a ciência que coloca hoje em causa a suprema importância do “facto” como “dado da experiência”; e nunca vi um professor de filosofia mencionar este facto.

Os “factos” (como “dados da experiência”) são importantes para a nossa orientação e para o nosso comportamento saudável em um universo que resulta da entropia da gravidade (o universo que experimentamos é o produto de duas grandes forças: a força quântica e força da gravidade).

A ciência é um instrumento da nossa vontade de sobreviver neste universo, mas não substitui a filosofia ou/e a teologia.

A ideia — implícita no texto da Helena Serrão — segundo a qual a ciência pode substituir a religião por um saber inequívoco, está ultrapassada. Só os professores de filosofia ainda não se deram conta disso.

A ligação entre “processo de promulgação”, por um lado, e a “Vontade Geral”, por outro lado

A Helena Matos denuncia aqui o (actual) problema da degenerescência do Estado parlamentar em Portugal: por via do “processo legislativo”, o legislador pode fazer absolutamente tudo o que quiser; e, ainda assim, continua a chamar “Direito” ao conjunto de “processos legislativos” que ilegitimamente manipula.


O princípio de “discussão pública” das leis é, em consequência, totalmente substituído pelo princípio asséptico e antidemocrático de “Vontade Geral“, segundo Rousseau.

A partir do momento em que todos os problemas económicos e sociais se tornam “estatais”, o Estado passa a gerir burocraticamente os diferentes interesses sociais; surge então o Estado administrativo, em substituição do Estado parlamentar; e quem controla o novo Estado administrativo são os dignitários da “Vontade Geral“.

No contexto da “democracia de massa” e com a emergência do Estado administrativo (em substituição do Estado parlamentar), a lei perde a sua dimensão geral e abstracta [Carl Schmitt, “Legalidade e Legitimidade”, 1932] — o legislador passa a adequar sistematicamente a norma jurídica ao facto isolado, transformando o Direito em um amontoado de contradições intrínsecas e num exercício político de arbítrio discricionário, ou mesmo em uma prática de actos gratuitos por parte da elite legisladora.

A discussão pública das leis é substituída por uma negociação oculta nos bastidores do parlamento, dominados por várias coligações e grupos de interesse — “parece que o Estado moderno se tornou naquilo a que Max Weber vê nele: uma grande empresa” [idem].

Estamos a entrar por um caminho muito perigoso. O problema é o de que, depois de embrenhados por esse caminho, só poderemos sair dele por intermédio da violência e da dissolução do Estado parlamentar.

O Domingos Faria, o sofista

pass-auf-ao-burro-webO Domingos Faria agarra-se a dois autores de tradição cultural britânica, e tira deles a ilação segundo a qual “quer se seja consequencialista quer se seja deontológico, não parece haver bons obstáculos morais para a eutanásia”.

E depois ele cita o “teólogo” Hans Küng para dizer que até mesmo o Cristianismo pode defender a legalização eutanásia — só lhe falta dizer que o Anselmo Borges, que defendeu a legalização do aborto, também é “teólogo”; e que, por isso, também é possível ao Cristianismo defender o aborto.

Ver o texto dele aqui.


A filosofia é entendida pelo Domingos Faria como os sofistas a entendiam no tempo de Sócrates: a filosofia é reduzida à capacidade de retórica, e não existe uma verdade objectiva intrínseca à Realidade.

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Ademais, o Domingos Faria (tal como a Isabel Moreira, por exemplo) acredita que é possível que a lei portuguesa da eutanásia seja melhor do a que lei belga, holandesa, ou canadiana — talvez porque ele pense que os legisladores portugueses pertençam a uma casta superior.

Porém, e mesmo que a lei “perfeita” da eutanásia não seja cumprida num ou noutro caso, serão esses casos os danos colaterais característicos do utilitarismo que o Domingos Faria defende.

E quem não pertença ao “maior número”, que se foda!


«HOY, el anciano es tan inútil como el animal viejo. Donde no hay alma que los años tal vez ennoblezcan, sólo queda un cuerpo fatalmente envilecido.» — Nicolás Gómez Dávila

Schopenhauer é uma fraude

A filosofia (uma teoria) não pode ser um exercício paranóico de retórica subjectivista; ou uma logomaquia irracional e gongórica desenvolvida em nome da “complexidade filosófica” — como é o caso de Schopenhauer, como podemos ver aqui.

Schopenhauer passou a vida a copiar o modelo filosófico hindu e budista, tentando adaptar o monismo oriental ao idealismo alemão. Aliás, o idealismo alemão não fez outra coisa senão copiar os monismos orientais, desde que Schelling foi rebuscar o modelo cabalístico de Jacob Böhme, somou-lhe uns pozinhos ideológicos oriundos do monismo budista, e inventou o conceito de “dialéctica” — que Hegel veio depois a copiar e a desenvolver.

Schopenhauer é uma anedota; foi uma espécie de autor de livros de “auto-ajuda” do seu tempo; e não pode, de modo nenhum, ser colocado no mesmo patamar de Kant, ou mesmo ser comparado com este.

E é um erro falar em “construtivismo idealista”, referindo-se a Kant: seria como se disséssemos que “Platão foi um idealista” porque lucubrou acerca de um “mundo das ideias”; ou que Karl Popper foi um “idealista” porque tergiversou sobre o conceito de “Mundo 3”.

Rousseau passou a vida a plagiar conceitos

Vemos aqui um texto que nos demonstra como o Jean-Jacques Rousseau foi o precursor da Teoria Crítica — a arte retórica niilista de colocar em dúvida a própria dúvida: e é só nisto que Rousseau é original, porque a crítica que Rousseau faz aos filósofos é literalmente copiada de Pascal [por exemplo, quando Blaise Pascal afirma que a filosofia conhece “280 bens supremos” de modo que cada filósofo teria a sua própria moral].

Ainda no referido texto, Rousseau [a negação romântica da ciência, como acontece hoje, por exemplo, com o Bloco de Esquerda e com uma certa parte do Partido Socialista] refere-se à dúvida sistemática de Descartes, criticando-a:

“Estava naquele estado de espírito de incerteza e de dúvida que Descartes exige para a procura da verdade. Este estado não é feito para durar, é inquietante e penoso; deixa-nos apenas o interesse do vício e a preguiça na alma. Não tinha o coração tão corrompido para aí me comprazer; e nada preserva melhor o hábito de reflectir que estar mais satisfeito consigo do que com o seu destino”.

Mas assim como Rousseau copiou Pascal, assim Descartes copiou Santo Agostinho que antecipou, no século IV, a famosa ideia de Descartes do século XVII: “cogito, ergo sum”:

“¿Quem quereria duvidar de que vive, se lembra, compreende, pensa, sabe ou julga? É que, mesmo quando se duvida, compreende-se que se duvida… portanto, se alguém duvida de tudo o resto, não deve ser dúvidas acerca disto. Se não existisse o Eu, não poderia duvidar absolutamente de nada. Por conseguinte, a dúvida prova por si própria a verdade: eu existo se duvido. Porque a dúvida só é possível se eu existo”.

→ “Cidade de Deus” (Santo Agostinho)

A professora Helena Serrão chapou o referido texto de Rousseau sem quaisquer comentários (“quem cala, consente”, diz o povo) — um texto da respigado da obra de Rousseau “L’Émile ou de l’éducation”, obra essa que fez [talvez] com que Rousseau enviasse os seus cinco filhos para um orfanato para não ter a preocupação e a trabalheira de os educar.


“Quando vemos ambos que aquilo que dizes é verdadeiro — ¿onde é que o vemos?, pergunto-te. Decerto não é em ti que o vejo, não é em mim que o vês. Vemo-lo ambos na imutável Verdade, que se encontra acima das nossas inteligências.”

→ Santo Agostinho, Confissões, XII, XXIV, 35

O Argumentum ad Verecundiam ou Falácia da Autoridade

Quando a autoridade de direito  de alguém coincide (teoreticamente) com a sua autoridade de facto, então não há uma razão   objectiva para duvidar da autoridade dessa pessoa em áreas da sua especialização — excepto quando se invocam outros argumentos provenientes de outras autoridades de facto da mesma área.

Se a mera invocação da autoridade de facto  fosse, em si mesma, uma falácia  lógica , então o conhecimento  não seria possível.

O Argumentum ad Verecundiam  ou Falácia da Autoridade pretende sustentar uma tese fazendo unicamente apelo a uma personalidade de reconhecido mérito, mas cujo saber ou competência é irrelevante para o tema em discussão.

Ora, isto é diferente do que foi escrito aqui.

Um exemplo de uma falácia da autoridade  “O Cristiano Ronaldo é cliente do Banco X, e por isso esse Banco é o melhor de Portugal”.

Ou: “O Carlos Fiolhais considera Karl Marx como o maior filósofo de todos os tempos, o que faz deste, de facto, o melhor de todos”.

Nem o CR7 é especialista em Bancos, nem o Carlos Fiolhais tem autoridade em filosofia suficiente para fazer juízos de valor  válidos sobre o “maior filósofo”.

E, por exemplo, se um médico dá uma opinião sobre matérias da sua especialidade, isso não configura necessariamente uma Falácia da Autoridade.

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A ética de Espinoza é logicamente absurda

 

«É que, deve notar-se, em primeiro lugar, que é em virtude de um só e mesmo apetite que o homem se diz tanto agir como sofrer. Por exemplo, quando nós demonstramos que a natureza humana é constituída de tal maneira que cada um deseja que os outros vivam à sua maneira

(…)

Este apetite, num homem que não é conduzido pela Razão, é paixão, que se chama ambição e não difere muito do orgulho; e, ao contrário, num homem que vive segundo o ditame da Razão, é acção, ou seja, virtude, que se chama piedade»

Espinoza


Vemos, nas duas citações supra, como Espinoza faz uma crítica à Natureza Humana, e depois incorre no tipo de acção que ele próprio criticou anteriormente — por um lado, “cada um deseja que os outros vivam à sua maneira”; e, por outro lado, “quem vive segundo a minha perspectiva é virtuoso”.

A ética de Espinoza pretende recorrer à Lógica para fazer a crítica da Natureza Humana, mas acaba por incorrer no mesmo tipo de incoerência lógica que pretendia criticar. Ou seja, a ética de Espinoza é (intrinsecamente) absurda.

Isto não significa que a ética não deva ser racional; significa, em vez disso, que a ética não se pode reduzir à Razão (como pretendia Espinoza). O ser humano é uma espécie de “sistema aberto”, sobre o qual não é possível um juízo definitivo isento de contradições.

A redução da ética à Lógica (ou a redução da ética à ciência) reduz o ser humano a um determinismo que Espinoza invoca para exorcizar a Graçaao invocarmos a “causa e efeito”, afastamos o nosso medo e calamos a nossa culpa. Para poder abusar da sua liberdade, o puritano necessita adoptar uma doutrina determinista — o determinismo é a ideologia do puritanismo das perversões humanas.

O determinismo de Espinoza seria concebível se não existisse a sua própria noção.