O modernismo e a adulteração do Princípio da Intencionalidade de Kant

Vejamos este texto publicado pela professora Helena Serrão:

“O protocolo do diálogo experimental representa para nós uma aquisição irreversível e garante que a natureza interrogada pelo homem será tratada como um ser independente, que sem dúvida se força a exprimir-se numa linguagem talvez inadequada, mas à qual os procedimentos impedem que diga as palavras que se gostaria de ouvir.

Fundamenta também o carácter comunicável e reprodutível dos resultados científicos; seja qual for o carácter parcial do que se obriga a natureza a exprimir, uma vez que ela falou em condições reprodutíveis, todos se inclinam, pois não seria capaz de nos enganar.”

A Nova Aliança, Ilya Prigogine e Isabelle Stengers, (1986),Lx, Gradiva, s.d, pp 78 e 79

O texto é um exemplo da linguagem gongórica utilizada pelos académicos, que Karl Popper tanto criticou. Por exemplo, “diálogo experimental” é um eufemismo de “experimentação”.

Como escreveu Martin Heidegger (“vom Ereignis”): « Em filosofia, tornar-se inteligível é um suicídio ». Aliás, refira-se que o texto mencionado é “Heideggeriano”, no sentido metafísico do termo.

Por outro lado, no referido texto, a Natureza é (ontologicamente) considerada como uma espécie de “ser vivente” — por exemplo, com conceitos como “a natureza interrogada pelo homem”, como se a Natureza pudesse ser interrogada enquanto um “ser independente” que “se exprime (autonomamente) numa linguagem”; e que “a Natureza é obrigada” pela ciência “a exprimir-se”, e que a Natureza não é “capaz de nos enganar”.

Estamos aqui próximos de uma versão moderna do hilozoísmo que se constitui como uma forma romântica (por isso, neopositivista) de materialismo (não-mecanicista), e na tradição de Heidegger:

Todos os entes se equivalem. Qualquer elefante numa selva qualquer da Índia é tão ente como qualquer processo de combustão química no planeta Marte, ou qualquer outra coisa.”

→ Heidegger, “Introdução à Metafísica” (pela página 21).

Estamos perante um hilozoísmo moderno que, inadvertidamente, se iniciou com Kant com o seu (dele) Princípio da Intencionalidade.

Segundo Kant, o princípio regulador geral que o “juízo reflectivo” estabelece para si próprio é a intenção da Natureza.

Embora não possamos provar que a Natureza está intencionalmente organizada, (segundo Kant) devemos sistematizar o nosso conhecimento empírico vendo a Natureza como se assim fosse (intencionalmente) organizada.

Segundo Kant, a sistematização do conhecimento empírico apenas é possível se agirmos com base no pressuposto de que uma compreensão, para além da nossa (Deus), nos forneceu leis empíricas organizadas de modo a que nos seja possível uma experiência unificada.

Para Kant, o conceito de “Deus” transcendental e cristão estava implícito no seu (dele) Princípio da Intencionalidade.

Hegel retirou o Deus transcendental da equação kantiana, criando um monismo com um Deus imanente. E depois Heidegger descartou completamente qualquer Deus (imanente e/ou transcendente), criando uma espécie de materialismo que se aproxima do hilozoísmo e que esmaga totalmente quaisquer diferenças ontológicas universais.

A burrice de Espinoza

A essência do pensamento de Espinoza é a defesa (dele) da possibilidade de o ser humano chegar, através do exercício da Razão (ou da ciência), à unidade com a substância única (panteísmo) a que ele chama de “Deus”.

“Os homens, as mulheres, as crianças, todos na verdade, podem igualmente obedecer, mas não serem sábios. Se dizemos que não é necessário compreender os atributos de Deus mas, acreditar nisso com toda a simplicidade e sem demonstração, está-se em pleno sonho: porque as coisas invisíveis, e que não são senão objecto do espírito, não podem ver-se sobre outra perspectiva para além da demonstração; razão por que o que não a possui não vê absolutamente nada dessas coisas…”

Deus requer ignorância do fiel

Isto seria coisa semelhante a que um cientista físico actual defendesse a ideia de que é possível, ao ser humano e através do exercício da Razão (ou seja, da ciência), compreender todo o universo (incluindo a essência da antimatéria, da matéria escura, dos buracos negros, da física quântica, etc.). Um cientista ateu dirá que sim, que “é possível ao ser humano compreender todo o universo… talvez daqui a 25 mil milhões de anos!”

O cientista ateu é muito optimista e romântico.

Quem estudou suficientemente a Filosofia sabe que Espinoza foi um gnóstico (ver gnose). O gnosticismo parasitou o Cristianismo desde a fundação deste, ou seja, desde a Antiguidade Tardia, e esse parasitismo continuou através da Idade Média — por exemplo, com Joaquim de Fiore, Espinoza, e muitos renascentistas —, entrou pela Idade Moderna adentro com Hegel e quejandos românticos alemães, depois Nietzsche, e mais tarde dominou a contemporaneidade do pensamento dos séculos XX (por exemplo, Heidegger, o Pós-modernismo) e XXI.

A diferença entre um gnóstico medieval, por um lado, e um cristão propriamente dito, por outro lado, é a de que a gnose (ou gnosticismo) é uma qualquer doutrina metafísica de salvação religiosa por intermédio do conhecimento intelectual, e por isso sem o dom directo da Graça Divina — ao passo que o Cristianismo pressupõe o dom directo da Graça de Deus (“graça” é proveniente do grego “Kharis”, que significa “benevolência”, “encanto”: é a dádiva proveniente de Deus relativa à salvação da alma, à remissão dos pecados, e à constância na provação).

A diferença entre Espinoza e um cristão normal é que Espinoza pensa que pode abarcar a compreensão do conceito de Deus (ou de universo) através da Razão humana, enquanto que o cristão adopta uma postura mais humilde e realista, porque sabe que o ser humano jamais conseguirá meter o universo inteiro dentro de um laboratório.

Ou seja: Espinoza é burro, mas é classificado pelos intelectuais como sendo “inteligente”; o cristão é inteligente, mas é classificado pelos intelectuais como sendo “burro”.

E não há mais nada a dizer acerca de Espinoza.

Entre a Cristina Ferreira e a Isabel Moreira, venha o diabo e escolha

Aconteceu recentemente um confronto político e ideológico entre o liberalismo levado às suas últimas consequências (Cristina Ferreira), por um lado, e por outro lado o cientificismo de Esquerda (Maria João Faustino, Isabel Moreira, etc.).

cristina ferreira web

No liberalismo (representado aqui por Cristina Ferreira), o negócio está em primeiro lugar; o negócio é o mais importante, e independentemente das consequências sociais, culturais e éticas.

O liberal dá valor ao Estado de Direito porque este promove a liberdade de mercado — em contraponto à posição do cidadão conservador que dá valor à liberdade de mercado porque esta promove o Estado de Direito.

O que me separa da Cristina Ferreira é que eu gosto da liberdade de mercado porque promove o Estado de Direito — ao passo que a Cristina Ferreira inverte as premissas da equação: para ela, a liberdade de mercado é um fim em si mesmo, e não apenas um meio. Para a Cristina Ferreira, a liberdade de mercado é mais importante do que o Estado de Direito.

Porém, o grupo de pessoas que se opõe à Cristina Ferreira nesta carta aberta (Maria João Faustino, Isabel Moreira, Francisco Louçã, Marta Crawford, entre outros) não é composto de cidadãos conservadores que prezam a liberdade e o Estado de Direito, mas antes é composto por agentes políticos de Esquerda para-totalitária (passo a redundância) que manipulam a ciência no sentido de impôr coercivamente a sua agenda política e ideológica.

Imaginem, por absurdo, que um grupo de pessoas ligadas à ala radical do Partido Socialista, e ao Bloco de Esquerda, afirma o seguinte:

“A ciência demonstra-nos que os “fassistas” têm que ser mortos”.

E, recorde-se que, em nome da pseudo-ciência já se promoveram os maiores massacres de seres humanos que a História já registou.

É neste sentido que os radicais signatários da referida carta aberta invocam a necessidade de recurso a “especialistas devidamente qualificados” — como se a ciência pudesse formatar a ética, por um lado, e moldar as relações entre os seres humanos, por outro lado: eles representam a morte da ética em nome da imposição da pseudo-ciência como modelo de formação política e ideológica para-totalitária.

Aquilo que é eticamente auto-evidente para um cidadão conservador, passou a ser necessariamente passível de “prova científica” arbitrária, para um radical de Esquerda. A ética foi, alegadamente e para estes radicais, substituída pela ciência (como se isto fosse possível).

A ideia de “responsabilidade moral” (ética) reside na experiência subjectiva, enquanto que a ciência só concebe acções determinadas pelas leis da natureza, e não concebe autonomia, nem sujeito, nem consciência e nem responsabilidade. A noção de “responsabilidade” é não-científica. A ética e a moral pertencem ao domínio da metafísica que se caracteriza pela falta de “bases objectivas”.

Na sua ânsia de combater a fundamentação ética herdada de milénios de cultura europeia (desde Sócrates a Nicolau Hartmann, passando por Santo Agostinho e S. Tomás de Aquino), os radicais de Esquerda do Partido Socialista, do Bloco de Esquerda e do LIVRE pretendem substituir essa fundamentação ética (que se baseia na Natureza Humana) por leis arbitrárias ditas “científicas” que corroborem a necessidade de restrição drástica da liberdade política.

Para que haja ciência é necessário postular a insignificância do universo e da natureza do ser humano — porque a neutralidade axiológica não é uma conclusão científica, mas antes é um postulado metodológico de quem faz ciência.

E é exactamente isto que os radicais de Esquerda pretendem: a manipulação da ciência (cientificismo) como meio de erradicação (na equação da Cultura e na organização social) do conceito de Natureza Humana.

O fundamento natural da estética

O substantivo e/ou adjectivo “estética” provém da palavra grega “aisthètikos” que significa “aquilo que os nossos sentidos podem captar”. Por isso, reduzir a estética à obra de arte (humana) — como faz aqui o Clive Bell — é de uma estupidez atroz.

O fundamento da estética não é a criação artística do Homem, que apenas cria arte em função de uma base estética pré-existente na Natureza. A estética refere-se à Beleza em todas as acepções do termo, e a arte é apenas um epifenómeno da Natureza.

Por exemplo, a espiral de Fi (ou espiral áurea) pré-existe conceptualmente na Natureza através da espiral de Fibonacci, e é uma curva geométrica simbolizada pela letra grega phi (ϕ ≈ 1,618): trata-se de uma espiral logarítmica que se expande por um factor de ϕ a cada quarto de volta (90º). Nada disto foi inventado ou criado pelo ser humano.

Metaforicamente: tenham em conta as três cores primárias existentes na Natureza: o azul, o vermelho e o amarelo. A partir destas três cores pré-existentes, centenas de milhares (senão milhões) de outras cores podem ser criadas. A arte é (isto é uma metáfora) a criação de muitos milhares de cores (formas) por parte do ser humano; mas as cores primárias são (metaforicamente) o fundamento natural da arte (humana).

A separação da obra de arte da sua relação com a Natureza foi introduzida por Hegel; basta este facto para “estarmos conversados”. O Romantismo, enquanto corrente ideológica, foi o pior que poderia ter acontecido à cultura ocidental.

Hegel introduziu a “morte” da arte quando decretou a “ascensão da arte” a praticamente toda a actividade humana. Segundo Hegel, a Natureza nem é bela nem é feia — o que causou todo um historial de aberrações conceptuais como, por exemplo, a de Jean-Paul Sartre que escreveu que “o real nunca é belo”; ou a frase de Paul Valery: “a estética não existe”.

É dentro deste contexto hegeliano que se desenvolveu a corrente do Estudo das Formas em si mesmas (por exemplo, Clive Bell, Wolffin, Panofsky) e (em oposição) a corrente do relacionamento da arte com o seu criador/artista e com a História (por exemplo, os estetas marxistas). Ambas as correntes são vergônteas de Hegel.

Kant foi o último filósofo do Iluminismo

A professora Helena Serrão publica aqui um texto “filosófico”, escrito por uma novelista de seu nome Muriel Barbery, que confunde os conceitos de “literatura” e de “filosofia”.

O texto de Muriel Barbery incorre em um erro comum, que consiste em classificar Kant como membro da corrente filosófica idealista (idealismo). Olavo de Carvalho cometeu esse mesmo erro, e a Wikipédia também.

“Kant foi o último filósofo iluminista” (palavras de Bertrand Russell corroboradas por Nicola Abbagnano).

O equivoco do referido texto vai mais longe: também classifica Husserl de “idealista”.

Quando temos dificuldade em entender um sistema filosófico, dizemos dele que é “idealista”. É assim que Husserl e Lavelle, por exemplo, são também classificados de “idealistas” por muita gente, porque são filósofos muito difíceis de compreender.

Nietzsche, o “Untermensch” raquítico, enfezado, apoucado, mesquinho, que criou o “Super-homem”

Nietzsche foi um homem franzino e raquítico que só “admirava homens militares” (sic, Bertrand Russell). Para Nietzsche, quem não fosse militar e guerreiro não lhe merecia respeito.

nietzsche webOra, foi este Nietzsche, que teve um caso incestuoso com a própria irmã, que critica a defesa da existência do livre-arbítrio no ser humano: naturalmente que, para ele, fornicar com a própria irmã não dependia da sua própria vontade, mas de uma espécie de determinismo que ele não podia controlar. É o mesmo argumento dos “gays já nasceram assim”: há muito de Nietzsche no movimento político LGBTQPBBQ+

Nietzsche começa a mixórdia literária com um plural majestático — “Nós somos indulgentes” — e acaba por se contradizer orgulhosamente, quando pretende julgar e castigar os “teólogos” que, segundo ele, julgam e castigam: alegadamente, os teólogos são culpados (segundo Nietzsche) porque querem encontrar culpados na Humanidade.

A ausência de livre-arbítrio dá muito jeito a quem defende, por exemplo, a prática da pedofilia e, no caso de Nietzsche, do incesto. Faz lembrar aquele pedófilo que argumenta perante o juiz:

“Sr. Dr Juiz! Eu não tenho culpa! A culpa de eu ter “comido” a criancinha é dos meus genes!”

Com Nietzsche, a situação é semelhante: a culpa de ele ter “comido” a própria irmã é dos seus (dele) genes! O livre-arbítrio (no ser humano) não é para aqui chamado; é mentira de “teólogos”.

Faço minhas as palavras de Bertrand Russell acerca de Nietzsche :

“Detesto Nietzsche … porque os homens a quem admira são conquistadores cuja glória é a perícia de matar homens. (…) Nietzsche despreza o amor universal”.

E foi este “Untermensch” raquítico, enfezado, apoucado, mesquinho, quase anão, que criou o “Super-homem” que ajudou a formar o nazismo…


Se olharmos para o nosso passado e reflectirmos sobre ele, parece-nos que existiu um determinismo na nossa acção, na medida em que esse passado não pode ser mudado; mas se olharmos exclusivamente para o nosso presente e para o que queremos fazer a partir de agora, verificamos que de facto somos providos de livre-arbítrio [liberdade].

O ser humano não está totalmente submetido ao determinismo das leis da natureza; e por isso é que as ciências sociais falham invariavelmente.

O jogo de palavras de Peter Singer e dos defensores da validade moral da eutanásia

Peter Singer escreve aqui (mutatis mutandis): « não existe diferença (moral) entre “matar”, por um lado, e “deixar morrer”, por outro lado».

Ou seja, para o Peter Singer e para a Esquerda radical — que inclui o Partido Socialista da Isabel Moreira —, quando um médico recusa tratamento (ortotanásia) para manter artificialmente a vida de um doente terminal, para ele (Peter Singer), do ponto de vista moral, a ortotanásia é a mesma coisa que “matar o doente” (eutanásia).

Naturalmente que o Peter Singer joga com as palavras: em vez de ortotanásia, fala em em “eutanásia passiva” que pode ser definida assim:

«Eutanásia passiva ou indirecta, verifica-se quando a morte do paciente ocorre, dentro de uma situação terminal, ou porque não se inicia uma acção médica ou pela interrupção de uma medida extraordinária, com o objectivo de minorar o sofrimento.»

Vejamos, agora, a definição de “ortotanásia”:

«Ortotanásia é o termo utilizado pelos médicos para definir a morte natural, sem interferência da ciência, permitindo ao paciente morte digna, sem sofrimento, deixando a evolução e percurso da doença.»

Segundo as definições respectivas, “ortotanásia” é a mesma coisa que “eutanásia passiva”. “Eutanásia passiva” é um sofisma.

Tanto uma como a outra pressupõem os cuidados paliativos que reduzam ou eliminem a dor.

eutanasia-velhariasO que Peter Singer faz é distinguir ou diferenciar acções que são iguais ou têm efeito semelhante — e por isso classifica uma determinada forma de eutanásia de “eutanásia passiva” que, segundo ele, é diferente da eutanásia propriamente dita.

Por exemplo, uma pessoa que está em um estado de coma prolongado no tempo, e a quem é retirado o apoio vital ao estado de coma, é vítima de eutanásia. Porém, a essa forma de eutanásia, o Peter Singer chama de “eutanásia passiva” — induzindo o leitor incauto em erro.

A concessão do apoio vital ao doente em estado de coma não é distanásia, porque o doente vive sem a necessidade de acções médicas agressivas: por exemplo, dar água a beber (intravenosa) a um doente em estado de coma não é distanásia; mas retirar-lhe a água de beber é eutanásia, embora o Peter Singer lhe chame (alegadamente sendo coisa distinta) de “eutanásia passiva”.

Ou seja, Peter Singer parte de um sofisma baseado em palavras que significam o mesmo mas em relação às quais ele faz uma distinção artificial.

Já não é a primeira vez que a professora Helena Serrão cita textos de Peter Singer — o que significa que falta massa cinzenta à primeira para avaliar criticamente os textos do segundo.

Quando Peter Singer, defende a opinião (utilitarismo) segundo a qual os seres humanos com deficiências físicas graves não têm qualquer direito à vida, justifica a sua opinião, por um lado, com a situação real de um deficiente grave —“uma vida que não vale a pena” (diz ele, sic); mas, por outro lado, também com a utilidade que representa, para a sociedade, não ter encargos materiais com essas pessoas deficientes.

Assim, em primeiro lugar, o referido utilitarista incorre em um Sofisma Naturalista — dado que não podemos tirar conclusões morais a partir de um facto. E depois, ele pressupõe a existência de um consenso acerca do valor e dos custos convenientes de uma vida humana — consenso esse que não existe, de facto.

A incoerência da teoria ética de Peter Singer

Quando analisamos uma teoria ética, devemos ter em atenção três problemas:

1/ a consistência ou coerência interna da teoria ética;
2/ a consistência ou coerência da teoria ética em relação a outras concepções do autor da dita;
3/ a resposta da teoria ética de acordo com os nossos sentimentos éticos, ou de acordo com os sentimentos éticos do senso-comum.

Se, em relação aos pontos 1 e 2, a conclusão é negativa, ou a teoria ética não é válida, na medida em que existe um qualquer erro intelectual; mas se for negativa em relação ao ponto 3., não podemos dizer que o autor errou mas apenas que não estamos de acordo com a teoria.

Peter Singer baseia a sua teoria ética na oposição ao conceito de “especismo”.

O termo “especismo” foi cunhado pelo psicólogo inglês Richard Ryder e adoptado pelo “eticista” australiano Peter Singer. Neste contexto, o especismo é (alegadamente) uma doutrina ética segundo a qual o ser humano, ou seja, o homo sapiens, é superior aos outros animais do ponto de vista ontológico, do ponto de vista biológico, e do ponto de vista moral.

O argumento de Peter Singer contra o “especismo” – a que podemos chamar “animalismo”, porque não encontramos até agora qualquer terminologia nesse sentido –, é o de que a pertença a uma determinada espécie biológica não tem qualquer importância moral, biológica e ontológica.

Contudo, a teoria ética de Peter Singer — o “animalismo” — , como antítese do “especismo”, é incompatível com o darwinismo que considera o homo sapiens como o produto último da evolução biológica (ponto 2). Mas Peter Singer adopta também o darwinismo (ponto 1) na sua concepção ética. Ou seja, existe uma incoerência ou um inconsistência interna entre a teoria ética de Peter Singer (contra o especismo), por um lado, e outras concepções filosóficas dele (a favor da evolução darwinista).

Portanto, Peter Singer incorre em um erro intelectual grave e a sua teoria Ética não é válida. E a professora Helena Serrão tinha a absoluta obrigação de saber disto.

Os intelectuais pós-modernos não conseguem compreender S. Tomás de Aquino

A professora Helena Serrão transcreve aqui um texto que menciona filósofo inglês George Edward Moore e que trata da problemática do Bem, do Belo, e da Arte.

Porém, muito mais importante do que Moore, na problemática do Bem e do Belo, é S. Tomás de Aquino:

1/ como todos os seres, o ser humano tende necessariamente para o seu fim e segundo a sua natureza: como todos os seres vivos, o Homem tem um arbítrio e escolhe certos actos entre outros; mas, diferentemente de outros seres vivos, o Homem é capaz de representar o objecto do seu desejo na ausência desse objecto. No ser humano, a vontade é um desejo informado pelo intelecto;

2/ mas, a partir do momento em que o Bem (ou o Belo) se apresenta ao intelecto, este deseja-o naturalmente (mesmo se se mantém a capacidade de se abster Dele). A falta (o erro) consiste em querer um bem particular, que não é o Bem devido, e explica-se pela mediação do intelecto: este (o intelecto) pode apresentar ao Desejo um objecto menos perfeito do que o Bem, e arrastar então para uma escolha desviante.

3/ A liberdade humana consiste em querer o que é racional. O Desejo humano alcança o seu repouso e o seu cumprimento perfeito na visão do Bem absoluto (Deus) que não depende do ser humano (Realismo).

4/ uma escolha desviante, que não é o Bem (ou o Belo) devido, não deixa de ser um bem — desde Sócrates (o grego) que sabemos que ninguém faz o mal apenas pelo mal: as pessoas querem sempre um qualquer bem, nem que seja o seu bem exclusivo e egoísta.

Ora, o autor do referido texto (Clive Bell) não se lembrou de S. Tomás de Aquino — o que não é de espantar: também Heródoto não conseguiu compreender as obras de Homero.

O piano toca sozinho e cria a sua própria música

Temos aqui um texto publicado pela professora Helena Serrão que pretende demonstrar que quando uma vitrola toca música, essa música é de autoria da própria vitrola.

Olhamos para a vitrola a tocar música, e pensamos:

“É a vitrola que produz a música; não há razão nenhuma para que pensemos que a criação da música possa ser produzida de outra forma senão pela vitrola”.

Ou seja, segundo o referido texto, o ser humano não é mais do que o seu cadáver.


Porém, pelo menos desde Kant que sabemos que sem a autoconsciência de que a consciência se pensa, não é possível qualquer conteúdo dessa consciência.

Vivemos hoje num mundo em que é legítimo dar, a uma pessoa estúpida, uma resposta estúpida a uma pergunta estúpida — porque o pensamento e as crenças não coincidem.

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O paradoxo da tolerância, de Karl Popper

O paradoxo da tolerância, de Karl Popper — exposto aqui pela professora Helena Serrão — pode ser interpretado ipsis verbis como o princípio da “tolerância repressiva” do marxista Marcuse e da Escola de Frankfurt: tudo o que vem da Esquerda deve ser tolerado, e tudo o que vem da Direita não deve ser tolerado.

Por isso é que o paradoxo da tolerância de Karl Popper é extremamente perigoso, e está na génese do Wokismo actual e dos puritanos actuais.

novos puritanos web


A tolerância é um princípio da razão que assenta sobre a ideia do exame livre tendo em vista a procura da verdade.

O que acontece é que o exame livre (da realidade) tendo em vista a procura da verdade está a ser colocado em causa por uma elite, e em nome da “tolerância” — muitas vezes, os que reivindicam para si mesmos o epíteto de “tolerantes” são os que proíbem ou inibem a procura racional da verdade: são os novos puritanos.

A repressão política arbitrária em nome da “tolerância” é extremamente perigosa, e liga Karl Popper à Escola de Frankfurt e/ou a George Soros.

Isto deveria ser ensinado na disciplina de filosofia.