O simulacro contemporâneo e pós-modernista de “ciência” [Ben Dupré]

A filosofia da ciência necessita de filósofos sérios, de gente honesta. Não é o caso de Ben Dupré, que a professora Helena Serrão cita aqui.

cientismo webNo referido texto, o dito cujo começa por dizer que o universo “tende para o infinito”. O verbo “tender” significa que, a priori, não há certeza (científica) de que o universo é infinito, ou não. “Tender” significa “possibilidade”, ou “verosimilhança”.

Porém, mais adiante no mesmo texto, o cujo dito já diz que “Deus não se cansa de fazer as coisas sem fim” — assumindo agora que o universo já é infinito. É a “evolução” moderna da lógica.

Ou seja, o Ben Dupré tende para a estupidez, o que, na “lógica” dele, significa que ele é, de facto, estúpido.

É necessária muita fé para acreditar que, em um universo em que “há um padrão de coisas existentes” (sic) e em que “há leis de causa / efeito produzidas pela própria natureza da matéria” (sic) — todo esse universo não tem qualquer Causa.

Só um idiota contemporâneo, travestido de filósofo, teria tanta fé. É preciso ter mais fé para acreditar num mundo ordenado mas desprovido de qualquer Causa, do que a fé necessária para acreditar em Deus.

ciencia-milagre web

Bacon escreveu que “desde que o homem percebe um pouco de ordem nas coisas, supõe imediatamente muito mais”.

E Einstein escreveu o seguinte [“Wörte in Zeit und Raum”, 1999, p92]:

“¿Acha estranho que se considere a compreensibilidade do mundo como milagre ou como mistério eterno?

Na realidade, a priori, deveria esperar-se um mundo caótico que não se pode compreender, de maneira alguma, através do pensamento. Poderia (aliás, deveria) esperar-se que o mundo se manifeste como determinado, apenas na medida em que intervimos, estabelecendo ordem. Seria uma ordem como a ordem alfabética das palavras de uma língua. Pelo contrário, a ordem criada, por exemplo, pela teoria da gravidade, de Newton, é de uma natureza absolutamente diferente. Mesmo que os axiomas da teoria sejam formulados pelo ser humano, o sucesso de um tal empreendimento pressupõe uma ordem elevada do mundo objectivo, que, objectivamente, não se podia esperar, de maneira alguma.

Aqui está o “milagre” que se reforça cada vez mais com o desenvolvimento dos nossos conhecimentos. Aqui está o ponto fraco para os positivistas e os ateus profissionais.”

Mais adiante:

“A ciência só pode ser feita por pessoas que estão completamente possuídas pelo desejo de verdade e compreensão. No entanto, esta base sentimental tem a sua origem na esfera religiosa. Isto inclui também a confiança na possibilidade de que as regularidades que valem no mundo do Existente sejam razoáveis, isto é, compreensíveis à Razão. Não posso imaginar um investigador sem esta fé profunda. É possível exprimir o estado das coisas através de uma imagem: a ciência sem religião é paralítica, a religião sem ciência é cega” (idem).

O que é espantoso não é a fé do idiota Ben Dupré: é o facto de a professora Helena Serrão o citar acriticamente amiúde. Citar um idiota deste calibre, de forma acrítica, certamente não beneficia os alunos dela.

A arte é metafísica

A professora Helena Serrão transcreve um texto de Aires de Almeida, através do qual se defende a ideia (de Bell) de que uma cópia / réplica de uma obra de arte também é uma obra de arte.


Eu defendo a ideia de que uma réplica de uma obra de arte não passa disso mesmo: uma réplica. Não é propriamente uma obra de arte, mas antes tem uma estrutura diferente da obra de arte propriamente dita. Podemos dizer, no limite e com muita condescendência, que “uma réplica é arte”; mas não podemos dizer que “uma réplica é uma obra de arte”.

Invoquemos a regra de Leibniz da “identitas indescernibilium” (a identidade do indistinguível). Segundo esta regra, as unidades que não se distinguem, em nenhuma característica, devem ser consideradas completamente iguais, ou seja, idênticas. E esta identidade é não só material, mas também metafísica. Ora, esta comunhão identitária não existe entre uma obra de arte e a sua réplica.

Vamos dar o exemplo do mito do Navio de Teseu. Depois de Teseu matar o Minotauro, os cidadãos de Atenas guardaram o seu navio no porto de Atenas, onde era alvo de romarias populares, e onde foi conservado com primor. Quando uma peça do casco apodrecia, a elite ateniense substituí-a por outra. E, à medida que as peças apodrecidas do casco iam sendo substituídas, o povo não duvidou que o navio continuava a ser o Navio de Teseu.

Depois de todas as peças de madeira do navio terem sido substituídas, os filósofos de Atenas questionaram-se sobre se o navio que se encontrava no porto não seria já um navio diferente do original Navio de Teseu. Estamos aqui perante a metáfora da obra de arte e da sua réplica. O Navio de Teseu foi duplicado a nível da dimensão do espaço, mantendo-se inalterado a nível do tempo. Ora, a regra da identitas indescernibilium aplica-se tanto na dimensão do espaço como na dimensão do tempo — daí podermos dizer, com propriedade, que aquele navio no porto de Atenas já não era o Navio de Teseu.

A identidade de uma obra de arte existe (também) em uma dimensão metafísica, porque a sua génese existe em uma dimensão não-física e intemporal, manifestando-se contudo na dimensão do espaço-tempo.

Se considerarmos uma obra de Picasso, por exemplo, como uma espécie particular de sistema quântico, então poderíamos dizer que dois quadros de Picasso, que estivessem no mesmo estado quântico, seriam exactamente o mesmo quadro (identitas indescernibilium). Ora, o vector de estado quântico do Navio de Teseu e o da sua réplica não era o mesmo — e por isso é possível distingui-los.

Uma réplica de uma obra de arte não é obra de arte: é uma réplica porque tem um vector de estado quântico totalmente diferente. Uma réplica apenas reflecte o valor da obra de arte, assim como a Lua reflecte a luz do Sol.

“Aprender pelo sofrer”

“Antes de te haver formado no ventre materno, eu já te conhecia;”

— 1 Jeremias, 1-5


“O primeiro homem, tirado da terra, é terrestre; o segundo vem do céu. Tal como era o terrestre, assim são também os terrestres; tal como era o celeste, assim são também os celestes.”

Paulo de Tarso, 1 COR 15, 45 – 49


Gadamer viu só uma parte do problema humano (ver ficheiro PDF) — viu a parte da realidade, maioritária, que depende exclusivamente da experiência, no sentido de “experimentaçãoempírica. Gadamer, assim como a maioria dos teóricos, parte do princípio estóico da “tábua-rasa”, isto é, recusa de qualquer forma de inatismo.

Padre Pio de PietrelcinaPorém, sempre houve pessoas especiais que “aprenderam” antes do sofrimento, ou seja, o sofrimento era algo esperado pelo conhecimento revelado pela consciência espiritual da realidade. Essas pessoas, não precisaram do sofrimento para a detenção de conhecimento, e o sofrimento chegou-lhes depois da consciência conhecedora desse sofrimento. Para essas pessoas, grande parte do conhecimento é prévia ao sofrimento, e este apenas corrobora (a posteriori) aquele.

A consciência é uma experiência originária — comprovável a nível intersubjectivo — que antecede a experiência objectiva (a tal “experiência” de Gadamer), tanto em termos lógicos como também em termos existenciais.

Essa “experiência originária”, em casos excepcionais, já não depende do “sofrer para aprender”: já tem consciência prévia do sofrimento da condição humana. Dou como exemplo duas pessoas: uma, Immanuel Kant, aprendeu com o sofrer da experiência objectiva e morreu com o cérebro definhado, sem autoconsciência. E o Padre Pio de Pietrelcina, cuja consciência de saber antecedeu o sofrimento, morreu lúcido, e de tal forma que previu exactamente o dia e a hora em que viria a falecer.

A Inteligência Artificial, e o Valor

O Ludwig Krippahl escreve aqui (ver PDF) acerca da identificação (ou negação da identificação) entre Inteligência Artificial, por um lado, e Consciência, por outro lado; e chegou a conclusões logicamente aceitáveis embora partindo de pressupostos imprecisos ou mesmo errados.

O Ludwig Krippahl parte para uma abordagem do conceito de “consciência” sem o definir — o que é extraordinário! Imaginem que alguém escreva um livro de mil páginas em letra miúda acerca da Consciência sem nunca definir o termo…


Eu tenho uma definição para “consciência”:

A consciência é uma experiência originária — comprovável a nível intersubjectivo — que antecede a experiência objectiva, tanto em termos lógicos como em termos existenciais.

O materialismo do Ludwig Krippahl impede-o de aceitar esta definição de “consciência”; e como ele não tem outra definição para “consciência”, ele omite, no texto, qualquer noção de “consciência”, por um lado, e prefere introduzir a noção de “algoritmo” para colmatar a lacuna da não-definição de “consciência”.

O Ludwig Krippahl define assim “algoritmo”:

“Um algoritmo é uma sequência abstracta de instruções que podem ser executadas de forma automática”.

Por um lado, o Ludwig Krippahl diz que “não há nada de sobrenatural ou imaterial acerca da consciência”; por outro lado, ele atira o conceito de “algoritmo” para a metafísicaquando ele diz que “a consciência não vem do algoritmo, que é abstracto, mas depende do suporte físico em que este for materializado [o cérebro]. Um algoritmo simples materializado num cérebro humano é executado de forma consciente”.

O Ludwig Krippahl reduz a consciência ao cérebro (epifenomenalismo); mas é obrigado, por obediência a princípios lógicos (os axiomas da lógica não são físicos), a remeter os “algoritmos” para o âmbito da metafísica (alegadamente, o algoritmo “materializa-se” no cérebro humano).


Diz o Ludwig Krippahl que “o algoritmo é abstracto”. Convém saber o que significa “abstracção”.

Um jardineiro só pode cuidar de cada uma das suas rosas, que ele cultiva, porque sabe — abstractamente — o que é uma rosa.

Ou seja, a “abstracção” é uma operação mental pela qual se distinguem as qualidades do seu suporte (neste caso, as qualidades da rosa) — seja este “real” ou “imaginário”, concreto ou já abstracto. Em última análise, a abstracção “ignora” (no sentido de “se abstrair”) a própria existência do suporte, para o considerar isoladamente — a abstracção aplica-se, de modo particular, à determinação dos termos de uma definição e dos quadros de classificação dos objectos da experiência. Neste sentido, o algoritmo é uma “ferramenta mental”, separada das modalidades a que se aplica, que possibilita e/ou facilita o conhecimento.


Por definição, o algoritmo é um termo matemático derivado da aglutinação entre o grego “arithmos” (que significa “número”), e o nome do cidadão persa (islâmico)  Al-Kazremi — e que designa, desde o fim da Idade Média, todo o sistema de cálculo efectuado segundo um processo uniforme com vista à solução de um tipo igualmente uniforme de problemas.

Não podemos confundir — como o Ludwig Krippahl parece fazer — o conceito de “complexidade de um processo de Inteligência Artificial”, por um lado, com o conceito de “consciência”, por outro lado. Aliás, o inglês Turing esclareceu bem este problema já em finais da década de 1940: não há como confundir as duas coisas.

Ademais, também não podemos confundir “processo de Inteligência Artificial”, por um lado, e “Valor” por outro lado — só a consciência produz uma valorização (subjectiva) da realidade, sendo que o Valor é a noção que traduz a passagem do desejo para o conjunto doutrinário e prático que constitui uma moral: toda a moral está fundada num conjunto de valores que são também abstracções representando o que se tem por desejável. Por exemplo, o Sagrado, enquanto sentimento, é a expressão suprema do Valor.

O axioma da “razão suficiente”

 

“Nenhum facto pode ser verdadeiro ou real, ou nenhum juízo pode ser correcto, sem uma razão suficiente.”

Leibniz  

É praticamente unânime a consideração segundo a qual Leibniz e Newton foram dos europeus com mais elevado QI da História.

O princípio da “razão suficiente” [de Leibniz] é simplesmente genial, desde logo porque não se poderia deduzi-lo da experiência: este axioma foi e será sempre válido. A verdade deste axioma é intemporal: a sua verdade existe numa dimensão intemporal da consciência, na qual a Razão participa.

Ou seja, é pressuposta a validade daquilo que só deve ser comprovado pela dedução — independentemente do modo como os axiomas lógicos [que não são físicos!] surgiram ao longo da evolução humana, a validade desses axiomas transcende a realidade humana.


A ler:


“Mesmo que os axiomas de uma [qualquer] teoria [cientificamente válida] sejam formulados pelo ser humano, o sucesso de um tal empreendimento pressupõe uma elevada ordem do mundo objectivo, que não se podia esperar de maneira alguma. ”

→ Albert Einstein, “Worte in Zeit Und Raum”, 1992, pág. 92, Bonn.

Bertrand Russell “já era”

 

A professora Helena Serrão transcreve aqui um textículo de um livro de Bertrand Russell. Devo dizer que tenho a primeira edição desse livro publicada em Portugal na década de 1960. Já o estudei 1 de trás para frente depois de frente para trás. E o seu conteúdo (da filosofia de Bertrand Russell) está, em grande parte, ultrapassado, isto é, não é válido (por exemplo) no que diz respeito à alegada contraposição (ou oposição) da ciência em relação à metafísica ou à religião em geral.

Para fazermos uma crítica a Bertrand Russell, reduzindo as suas teses ao absurdo, devemos ler três autores: 1/ Karl Popper, na área da ciência; 2/ Louis Lavelle, na metafísica e na ética; e 3/ Eric Voegelin, nas ciências da História.

Naturalmente que nunca veremos a professora Helena Serrão citar quaisquer destes três autores; aliás, só lhe falta começar a citar Karl Marx, Engels e Feuerbach, por exemplo.


O que mais me choca em Bertrand Russell é a ética (dele). Em resumo e simplificando, ele diz o seguinte (hiperbolizando): se uma maioria de pessoas, em uma determinada sociedade, for de opinião (por exemplo) de que o infanticídio é moralmente aceitável, então essa ética é aceitável porque é apoiada pela maioria das pessoas (é o mesmo princípio da ética do “modelo discursivo” do marxismo cultural de J. Habermas e de K. O. Apel).

A ética de Bertrand Russell é humeana (David Hume), e por isso mesmo subjectivista e auto-contraditória — porque, a julgar pelos seus próprios parâmetros, ele objectivamente torna legítima a ética do regime nazi (por exemplo), ao mesmo tempo que subjectivamente critica o nazismo. Como em toda a ética de raiz humeana (como é o caso, por exemplo, do utilitarismo), há na ética de Bertrand Russell uma contradição insanável e irreconciliável entre o subjectivo e o objectivo.


Vamos analisar apenas uma proposição do referido texto; por exemplo:

¿Estará o mundo dividido entre espírito e matéria, e sendo assim, que é espírito e que é matéria?


bertrand-russell-300-webActualmente, só um burro coloca o problema da Realidade desta forma, depois das descobertas da física quântica. Aliás, a física quântica incomoda os “filósofos de academia”, aqueles que têm como função principal justificar o espírito empedernido de técnicos que se auto-intitulam “cientistas”. 2

Não quero eu com isto dizer que não exista eventualmente diferença entre espírito e matéria (“espírito” aqui entendido no sentido de “consciência”): o que eu quero dizer é que não existe nenhum ser humano, cientista ou não, que me dê uma definição de “matéria”. Se houver por aí um génio que me defina “matéria”, agradeço antecipada- e encarecidamente. Ora, Bertrand Russell fala de conceitos que não têm uma definição precisa, e por isso entra pela metafísica que ele próprio critica.

Porém, se partirmos do princípio segundo o qual “tudo o que tem massa é matéria”, então a “função de onda quântica” (princípio da sobreposição) 3 revela-nos de que existem aspectos da Realidade que não têm massa, e portanto não podem ser considerados como sendo “matéria”.

“A distinção entre matéria e espaço vazio teve que ser finalmente abandonada, quando se tornou evidente que as partículas virtuais [partículas elementares] podem ser criadas espontaneamente, a partir do vazio, e nele desaparecem novamente, sem que esteja presente algum nucleão ou qualquer outra partícula que interactue fortemente.

As partículas [partículas elementares] formam-se a partir do nada e desaparecem novamente no vácuo. De acordo com a “teoria de campo”, acontecimentos deste tipo estão constantemente a acontecer. O vácuo está longe de se encontrar vazio. Pelo contrário, contém um ilimitado número de partículas que surgem infinitamente.”

Fritjof Capra, “O Tau da Física”, página 184

Este trecho de Fritjof Capra destrói qualquer construção ideológica clássica de Bertrand Russell em torno do conceito de “matéria” — porque se as partículas elementares surgem e desaparecem “espontaneamente” no universo, ficamos sem saber o que significa “matéria”.


Notas

1. Estudar não é apenas ler: é analisar cada palavra do ponto de vista morfológico e sintáctico, e depois fazer uma síntese tão simplificada quanto seja possível e sem gongorismos. 
2. O chamado “cientista trabalhador” (em contraponto ao “cientista pensador”), que dispõe de fórmulas comprovadas que estão resumidas em uma espécie de “livro de receitas”: até mesmo um físico medíocre pode fazer um bom trabalho no laboratório, embora não tenham consciência das consequências da física quântica actual para a questão da Realidade.
3. Em Física, chamam de “complementaridade” a um método duplo que consiste em determinar o comportamento de uma partícula elementar, que pode comportar-se como uma onda (sem massa) ou como matéria; aos dois métodos complementares para determinar o comportamento de uma partícula elementar, chamou-se de “complementaridade”.