O papa Chico e a divisão na Igreja Católica

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17 Mas, conhecendo seus pensamentos, Jesus disse-lhes:

Todo reino dividido contra si mesmo será destruído; e cairá casa sobre casa. 18 Ora, se Satanás também está dividido contra si mesmo, ¿como há-de manter-se o seu reino? Pois vós dizeis que é por Belzebu que eu expulso os demónios. 19 Se é por meio de Belzebu que eu expulso demónios, ¿por quem os expulsam os vossos discípulos? Por isso, eles mesmos serão os vossos juízes. 20 Mas, se eu expulso os demónios pela mão de Deus, então o Reino de Deus já chegou até vós.”

(…)

23 “Quem não está comigo, está contra mim. E quem não junta comigo, dispersa.”

(Lucas, 11, 17- 23)

O CDS está num beco sinuoso e apertado, de difícil saída

A Joana Bento Rodrigues escreveu o seguinte:

«Ora, muitos dos que apoiam e continuam a votar no CDS, fazem-no por convicção na sua doutrina e nos seus valores. Como tão bem referiu o líder [o Chicão] em entrevista recente, o CDS é o partido dos valores, do conservadorismo, “da solidariedade, da família, da vida, da dignidade da pessoa, da constância, da firmeza”.»

Mais adiante, ela escreve:

«(…) o CDS-PP, que se assume como democrata-cristão e da direita conservadora (…)»


Ora, o Chicão diz que o CDS é o “partido dos valores”, mas ficamos sem saber exactamente quais as consequências políticas da assunção esses valores, por um lado, e por outro lado, o Chicão não nos diz de onde esses “valores” são originários. A Joana Bento Rodrigues dá-nos uma pista, quando fala em “democracia-cristã”; mas a opinião da Joana não define a linha política e ideológica oficial do CDS — o conceito de “democracia-cristã” foi formal- e substantivamente banido do CDS desde que o Manuel Monteiro deixou a liderança daquele partido.

Os “Valores, do conservadorismo, da solidariedade, da família, da vida, da dignidade da pessoa”, têm uma origem ideológica e filosófica profundamente enraizada no Cristianismo.

Se retirarmos, aos tais “valores”, a influência histórica e cultural cristã, ficaríamos com uma mão cheia de nada: não saberíamos por que razão teríamos como dever adoptar a solidariedade, respeitar a família e da vida humana.

Isto não significa que todo o militante ou simpatizante do CDS teria que ser um religioso praticante; não é isso que eu pretendo dizer. O que eu digo é que o CDS terá que assumir publica- e oficialmente a matriz cristã do seu ideário — porque, caso contrário, em pouco se distingue formalmente do PSD ou do Partido Socialista. Em política, o formal tem muita importância.

Eu percebo a dificuldade do Chicão: em um tempo em que a Igreja Católica do Chiquinho se compraz sistemicamente com Haraquiris públicos e com cedências à extrema-esquerda, é compreensível que um líder do CDS tenha alguma vergonha em se afirmar “católico”.

Mas o conceito de “democracia-cristã” não tem que ser, necessariamente, restrito ao conceito do “católico que está na moda”; o conceito de “Cristianismo” ultrapassa largamente as modas pueris e radicais daquele Chicozinho que ocupa a cátedra do Vaticano.

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José Seara Duque, o católico bonzinho

O católico bonzinho é aquele que segue piamente o papa Chiquinho (e o Anselmo Borges): se o Chico manda que ele se lance a um poço, o católico bonzinho despenha-se a ele e à sua família inteira; não faz a coisa por menos.

Quando um determinado católico não é manifestamente “bonzinho”, então segue-se que é “populista”. É esta a mensagem do católico bonzinho José Seara Duque, expressa aqui.


Ainda não percebi o que significa “populismo”. A própria Wikipédia diz o seguinte: “não existe uma única definição do termo”. Se por “populismo” entendermos “demagogia”, então a nossa classe política inteira é certamente populista.

Quando o católico bonzinho Duque se insurge contra a actual elite, pode estar a assumir uma atitude populista — segundo a Wikipédia: “Populismo é um conjunto de práticas políticas que se justificam num apelo ao “povo”, geralmente contrapondo este grupo a uma “elite”.”


papa-lutero-webO “católico bonzinho” difere do “católico fervoroso”, na medida em que o primeiro (por exemplo) não jejua às Sextas-feiras. O católico bonzinho não é fã de sotainas; prefere os padres com calças de ganga, se possível, rotas. O católico bonzinho adora as hóstias na mão, e concorda em fechar igrejas porque o Estado pode e manda.

O católico bonzinho é religiosamente muito inclusivo: “inclusivamente” Maomé e Lutero (e até mesmo os ex-canibais da Papua ou o Candomblé dos trópicos); e quem não “inclui” Maomé e Lutero (e o Candomblé), é populista.

O católico bonzinho não é maniqueísta; mas os católicos que não são bonzinhos são “populistas”.

Tal como ordena o chefe Chiquinho, o católico bonzinho defende as suas ideias sem qualquer tipo de consequência política — porque o católico bonzinho, é bonzinho, e detesta a acção política. E quem actua politicamente no reino da cristandade, é populista.

Tal como filósofo cristão bonzinho Kierkegaard, o católico bonzinho fica paralisado perante o livre-arbítrio, face à possibilidade de escolha — exactamente porque é bonzinho: o católico bonzinho é suicidário, dá sempre a outra face política aos marxistas; e quando um qualquer católico expulsa os vendilhões do templo, então este é populista.

O católico bonzinho é aquele que pretende submeter a autoridade secular da Igreja Católica à autoridade do Estado. Aliás: o católico bonzinho é aquele que não se importa de submeter qualquer tipo de autoridade à autoridade do Estado — o católico bonzinho é cúmplice do despotismo.

A Laurinda Alves está racionalmente errada

Eu não estou de acordo com a Laurinda Alves quando ela cita aquiescentemente um “teólogo” francês (hoje, damos um pontapé numa pedra e sai logo um “teólogo” da laia do Anselmo Borges).

1/ A ideia segundo a qual o conceito de “Deus” varia segundo as modas dos tempos, e que “o Deus de agora é melhor do que o Deus dos nossos avós” (falácia ad Novitatem), é uma rendição em relação à prevalência moderna da imanência no mundo; em consequência, a transcendência de Deus dissipa-se perante a força imanente das “modas de Deus”, que se sucedem.

2/ Há, no texto da Laurinda Alves, uma irracionalidade que é própria da visão feminina do mundo (em geral), e neste caso particular, da religião cristã. E essa irracionalidade não me agrada, de modo nenhum.

A própria “fé”sendo sinónimo de “confiança em Deus” — é uma expressão da racionalidade humana, e não um irracionalismo como defendem os “teólogos modernos” da laia de Anselmo Borges.

A Igreja Católica da Idade Média, e a prostituição

O José, da Porta da Loja, iniciou assim um artigo acerca da Tia Ana Loureiro:

« O CM de hoje dá um destaque de página interior ao “fait-divers” protagonizado por uma puta, perdão, “acompanhante de profissão” que foi à AR defender o direito das putas a serem uma profissão condigna com a legalidade.

Nada a opor. Afinal dizem ser a mais velha profissão do mundo e mesmo no tempo de Salazar eram respeitadas pelo que faziam às escondidas, tendo-lhes sido dispensados os dispensários convenientes para prevenir doenças infecto-contagiosas. Realismo político, sem grandes moralismos.»

Note-se que a atitude de Salazar em relação às putas traduz a atitude tradicional (e tradicionalista) do catolicismo em relação à prostituição.


O sistema moral católico medieval (e tradicionalista) assentou primordialmente nos sete pecados mortais: os do espírito, por um lado, e os da carne, por outro lado — sendo que os do espírito seriam mais graves. O orgulho, a cobiça, a avareza, e a ira, pertencem à categoria dos pecados mortais do espírito; a gula, a luxúria, e a preguiça pertencem à categoria (entendida como “menos grave”) dos pecados da carne.

Concebidos desta forma, os sete pecados mortais regiam o sistema de ética comunitária católica desde o inicio da Idade Média, sendo que os pecados da concupiscência eram mais “desculpáveis” do que os pecados de ódio (esta é uma das grandes diferenças entre o sistema ético católico, por um lado, e os sistemas éticos calvinista e judeu, por outro lado): os pecados de ódio destroem a comunidade, ao passo que, sem uma certa tolerância em relação aos pecados da concupiscência, talvez não fosse possível sequer a própria existência da comunidade.

Por exemplo, para Dante (no seu “Inferno”), o orgulho, a cobiça, a ira e a avareza aparecem em primeiro lugar, como os pecados mais graves. Para Dante, a cobiça (que incluía a inveja) era o pior dos pecados (estou de acordo com ele) porque se opõe directamente à solidariedade e à caridade.

Porém, para a moral católica tradicionalista, os pecados de concupiscência eram, por assim dizer, tão “triviais” como a preguiça ou/e a gula (e a ingestão de bebidas alcoólicas). Em contraste, a luxúria significava “adultério”, mas neste caso só era aplicável a mulheres casadas e padres — porque o adultério não era visto como um mero caso de amor aventureiro, mas antes como uma forma nojenta e execrável de roubo.

O homem católico vulgar da Idade Média não considerava a castidade mais importante do que a caridade (aliás, esta valoração vem na linha de Santo Agostinho).

Todo este quadro ético se alterou um pouco com o advento do protestantismo calvinista, por um lado, e com a influência radical do puritano dominicano italiano Savonarola, por outro lado. Com a contra-reforma, os catecismos católicos mudaram também um pouco: a cobiça e a ira passaram a ser pecados mortais “menos importantes”, e a avareza e a luxúria como pecados mortais compreensíveis em determinadas situações. E em vez dos sete pecados mortais, a Igreja Católica da contra-reforma (século XVI) passou a preferir utilizar os Dez Mandamentos como esteio ético da comunidade (vemos aqui a influência, indirecta mas nítida, de Lutero e de Calvino na Igreja Católica do século XVI) .

Em suma, os pecados vulgares de concupiscência eram vistos (na Idade Média católica) com uma certa tolerância: enquanto a mulher adúltera era violentamente reprimida (em alguns locais da Europa medieval, as mulheres adúlteras eram afogadas), já a fornicação ofensiva de prostíbulo era tolerada, e a prostituição era vista como uma profissão exercida nos banhos públicos (principalmente nas cidades italianas, mas também no norte da Europa, na Holanda, na Flandres e em Inglaterra).

A prostituição não era propriamente legal, e as putas podiam ser presas de quando em vez, dependendo da influência política circunstancial das mulheres casadas da elite; mas eram posteriormente libertadas.

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Assim, era comummente considerado (na Idade Média) que seria um dever cristão autorizar e manter um sistema eficazmente fiscalizado de prostituição pública — para além daquele que já existia nos banhos públicos desde o império romano.

No século XV — para além dos banhos públicos que sempre existiram desde o império romano —, os bordéis municipais não admitiam meninos, homens casados e/ou do clero, e fechavam durante a Semana Santa, aos Domingos e outros dias de festa.

As putas e as respectivas patroas eram consideradas (na Idade Média católica ) praticantes de uma profissão “que se respeitava, embora às escondidas”; muitas delas, já no fim das suas carreiras “profissionais”, tinham um casamento católico à espera, com um dote municipal relevante; ou então tinham uma reforma decente em um convento para as “almas arrependidas”.

A Igreja Católica, até à contra-reforma, não era propriamente puritana. O puritanismo (gnosticismo), enquanto sistema ético articulado, surgiu principalmente com Calvino, mas também com o protestantismo em geral. E, neste particular, Salazar seguiu fielmente essa tradição católica: não puritana, realista e pragmática.