José Seara Duque, o católico bonzinho

O católico bonzinho é aquele que segue piamente o papa Chiquinho (e o Anselmo Borges): se o Chico manda que ele se lance a um poço, o católico bonzinho despenha-se a ele e à sua família inteira; não faz a coisa por menos.

Quando um determinado católico não é manifestamente “bonzinho”, então segue-se que é “populista”. É esta a mensagem do católico bonzinho José Seara Duque, expressa aqui.


Ainda não percebi o que significa “populismo”. A própria Wikipédia diz o seguinte: “não existe uma única definição do termo”. Se por “populismo” entendermos “demagogia”, então a nossa classe política inteira é certamente populista.

Quando o católico bonzinho Duque se insurge contra a actual elite, pode estar a assumir uma atitude populista — segundo a Wikipédia: “Populismo é um conjunto de práticas políticas que se justificam num apelo ao “povo”, geralmente contrapondo este grupo a uma “elite”.”


papa-lutero-webO “católico bonzinho” difere do “católico fervoroso”, na medida em que o primeiro (por exemplo) não jejua às Sextas-feiras. O católico bonzinho não é fã de sotainas; prefere os padres com calças de ganga, se possível, rotas. O católico bonzinho adora as hóstias na mão, e concorda em fechar igrejas porque o Estado pode e manda.

O católico bonzinho é religiosamente muito inclusivo: “inclusivamente” Maomé e Lutero (e até mesmo os ex-canibais da Papua ou o Candomblé dos trópicos); e quem não “inclui” Maomé e Lutero (e o Candomblé), é populista.

O católico bonzinho não é maniqueísta; mas os católicos que não são bonzinhos são “populistas”.

Tal como ordena o chefe Chiquinho, o católico bonzinho defende as suas ideias sem qualquer tipo de consequência política — porque o católico bonzinho, é bonzinho, e detesta a acção política. E quem actua politicamente no reino da cristandade, é populista.

Tal como filósofo cristão bonzinho Kierkegaard, o católico bonzinho fica paralisado perante o livre-arbítrio, face à possibilidade de escolha — exactamente porque é bonzinho: o católico bonzinho é suicidário, dá sempre a outra face política aos marxistas; e quando um qualquer católico expulsa os vendilhões do templo, então este é populista.

O católico bonzinho é aquele que pretende submeter a autoridade secular da Igreja Católica à autoridade do Estado. Aliás: o católico bonzinho é aquele que não se importa de submeter qualquer tipo de autoridade à autoridade do Estado — o católico bonzinho é cúmplice do despotismo.

A Laurinda Alves está racionalmente errada

Eu não estou de acordo com a Laurinda Alves quando ela cita aquiescentemente um “teólogo” francês (hoje, damos um pontapé numa pedra e sai logo um “teólogo” da laia do Anselmo Borges).

1/ A ideia segundo a qual o conceito de “Deus” varia segundo as modas dos tempos, e que “o Deus de agora é melhor do que o Deus dos nossos avós” (falácia ad Novitatem), é uma rendição em relação à prevalência moderna da imanência no mundo; em consequência, a transcendência de Deus dissipa-se perante a força imanente das “modas de Deus”, que se sucedem.

2/ Há, no texto da Laurinda Alves, uma irracionalidade que é própria da visão feminina do mundo (em geral), e neste caso particular, da religião cristã. E essa irracionalidade não me agrada, de modo nenhum.

A própria “fé”sendo sinónimo de “confiança em Deus” — é uma expressão da racionalidade humana, e não um irracionalismo como defendem os “teólogos modernos” da laia de Anselmo Borges.

A Igreja Católica da Idade Média, e a prostituição

O José, da Porta da Loja, iniciou assim um artigo acerca da Tia Ana Loureiro:

« O CM de hoje dá um destaque de página interior ao “fait-divers” protagonizado por uma puta, perdão, “acompanhante de profissão” que foi à AR defender o direito das putas a serem uma profissão condigna com a legalidade.

Nada a opor. Afinal dizem ser a mais velha profissão do mundo e mesmo no tempo de Salazar eram respeitadas pelo que faziam às escondidas, tendo-lhes sido dispensados os dispensários convenientes para prevenir doenças infecto-contagiosas. Realismo político, sem grandes moralismos.»

Note-se que a atitude de Salazar em relação às putas traduz a atitude tradicional (e tradicionalista) do catolicismo em relação à prostituição.


O sistema moral católico medieval (e tradicionalista) assentou primordialmente nos sete pecados mortais: os do espírito, por um lado, e os da carne, por outro lado — sendo que os do espírito seriam mais graves. O orgulho, a cobiça, a avareza, e a ira, pertencem à categoria dos pecados mortais do espírito; a gula, a luxúria, e a preguiça pertencem à categoria (entendida como “menos grave”) dos pecados da carne.

Concebidos desta forma, os sete pecados mortais regiam o sistema de ética comunitária católica desde o inicio da Idade Média, sendo que os pecados da concupiscência eram mais “desculpáveis” do que os pecados de ódio (esta é uma das grandes diferenças entre o sistema ético católico, por um lado, e os sistemas éticos calvinista e judeu, por outro lado): os pecados de ódio destroem a comunidade, ao passo que, sem uma certa tolerância em relação aos pecados da concupiscência, talvez não fosse possível sequer a própria existência da comunidade.

Por exemplo, para Dante (no seu “Inferno”), o orgulho, a cobiça, a ira e a avareza aparecem em primeiro lugar, como os pecados mais graves. Para Dante, a cobiça (que incluía a inveja) era o pior dos pecados (estou de acordo com ele) porque se opõe directamente à solidariedade e à caridade.

Porém, para a moral católica tradicionalista, os pecados de concupiscência eram, por assim dizer, tão “triviais” como a preguiça ou/e a gula (e a ingestão de bebidas alcoólicas). Em contraste, a luxúria significava “adultério”, mas neste caso só era aplicável a mulheres casadas e padres — porque o adultério não era visto como um mero caso de amor aventureiro, mas antes como uma forma nojenta e execrável de roubo.

O homem católico vulgar da Idade Média não considerava a castidade mais importante do que a caridade (aliás, esta valoração vem na linha de Santo Agostinho).

Todo este quadro ético se alterou um pouco com o advento do protestantismo calvinista, por um lado, e com a influência radical do puritano dominicano italiano Savonarola, por outro lado. Com a contra-reforma, os catecismos católicos mudaram também um pouco: a cobiça e a ira passaram a ser pecados mortais “menos importantes”, e a avareza e a luxúria como pecados mortais compreensíveis em determinadas situações. E em vez dos sete pecados mortais, a Igreja Católica da contra-reforma (século XVI) passou a preferir utilizar os Dez Mandamentos como esteio ético da comunidade (vemos aqui a influência, indirecta mas nítida, de Lutero e de Calvino na Igreja Católica do século XVI) .

Em suma, os pecados vulgares de concupiscência eram vistos (na Idade Média católica) com uma certa tolerância: enquanto a mulher adúltera era violentamente reprimida (em alguns locais da Europa medieval, as mulheres adúlteras eram afogadas), já a fornicação ofensiva de prostíbulo era tolerada, e a prostituição era vista como uma profissão exercida nos banhos públicos (principalmente nas cidades italianas, mas também no norte da Europa, na Holanda, na Flandres e em Inglaterra).

A prostituição não era propriamente legal, e as putas podiam ser presas de quando em vez, dependendo da influência política circunstancial das mulheres casadas da elite; mas eram posteriormente libertadas.

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Assim, era comummente considerado (na Idade Média) que seria um dever cristão autorizar e manter um sistema eficazmente fiscalizado de prostituição pública — para além daquele que já existia nos banhos públicos desde o império romano.

No século XV — para além dos banhos públicos que sempre existiram desde o império romano —, os bordéis municipais não admitiam meninos, homens casados e/ou do clero, e fechavam durante a Semana Santa, aos Domingos e outros dias de festa.

As putas e as respectivas patroas eram consideradas (na Idade Média católica ) praticantes de uma profissão “que se respeitava, embora às escondidas”; muitas delas, já no fim das suas carreiras “profissionais”, tinham um casamento católico à espera, com um dote municipal relevante; ou então tinham uma reforma decente em um convento para as “almas arrependidas”.

A Igreja Católica, até à contra-reforma, não era propriamente puritana. O puritanismo (gnosticismo), enquanto sistema ético articulado, surgiu principalmente com Calvino, mas também com o protestantismo em geral. E, neste particular, Salazar seguiu fielmente essa tradição católica: não puritana, realista e pragmática.

Quando os ateus de serviço nos me®dia têm mais respeito pelo papa Chicozinho do que pelo povo católico

«Ou falamos, afinal, da intolerância do fundamentalismo católico que tudo faz para se opor ao Papa Francisco, cuja coragem e espírito progressista tanto incomodam os conservadores da igreja, dos “huguinhos”, à Fraternidade São Pio X, passando pelos “legionários de Cristo”?»

1/ Quando vemos os ateus em geral — e esta ateísta em particular — a tecer loas ao papa Chico, algo de muito grave se passa na estrutura hierárquica da Igreja Católica. Contudo, penso que o professor Bacelar Gouveia não deveria gastar cera com tão ruim defunta.

O facto de o papa Chiquinho e o cardeal de Lisboa beijarem os genitais ao António Costa não significa que os artigos da Constituição percam o seu valor e a sua objectividade.

Parece-me claro que se a Constituição não permite que o estado de excepção (ou estado de emergência) limite a liberdade religiosa, então segue-se que a Constituição deve ser revista para satisfazer a ateísta Bárbara Reis; ou então, a criatura deve meter a viola ao saco e ir cavar batatas, em vez de escrever em jornais.

papa-chico-comuna-400-webO que não vale (não é legítimo) é dizer-se que a Constituição pode ser sujeita a interpretações que justifiquem a própria defesa da inconstitucionalidade dos seus artigos.

Assim, por exemplo, o artigo 24, alínea 1., da Constituição, diz que “a vida humana é inviolável”; e o artigo 25, alínea 1., diz que “a integridade moral e física das pessoas é inviolável”. E o conjunto destas duas disposições legais não permite a eutanásia, ou mesmo o suicídio assistido patrocinado pelo Estado.

Ou seja, para que a eutanásia seja legalizável, é preciso previamente rever a Constituição. Não há aqui margem para “subjectivismos interpretativos” à moda da Bárbara Reis.

A ideia segundo a qual “nada, na lei fundamental, é objectivo” e “tudo na Constituição está sujeito à nossa interpretação” mais conveniente politicamente — esta ideia é assustadora. Passamos a viver juridicamente sobre areias movediças.

2/ A sra. Bárbara Reis deveria saber distinguir entre a lei, por um lado, e o seguidismo político do actual clero da Igreja Católica, por outro lado. Mas ela não parece saber fazer a distinção; e por isso é que o professor Bacelar Gouveia “está a chover no molhado” quando lhe faz qualquer crítica.

O facto de o papa Chiquinho e o cardeal de Lisboa beijarem os genitais ao António Costa não significa que os artigos da Constituição percam o seu valor e a sua objectividade.

Por fim, alguém com coragem que questiona a pretensa autoridade de direito do Anselmo Borges

“Contra a soberba gnóstica, só imuniza o cepticismo ou a fé. Aquele que não crê em Deus pode ter a decência de não crer em si mesmo”. — Nicolás Gómez Dávila


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A única forma de lidar com um gnóstico é o de impedir a sua contaminação ideológica, afastando-o das instituições que são visadas pelo parasitismo ideológico que o motiva e alimenta.

Vemos, no semanário Sol, um artigo assinado por Pedro Sinde que se refere à pústula escrita pelo Anselmo Borges a que eu fiz referência em um comentário recente.

Face ao silêncio escandaloso da hierarquia da Igreja Católica portuguesa, é caso para dizer: “Por fim, aparece alguém que desafia a pretensa autoridade de direito do Anselmo Borges em matéria de catolicismo!”

A posição do Anselmo Borges em relação ao Novo Testamento é (nitidamente!) de desconstrução [“desconstrucionismo”, ou “desmontagem ideológica” (ver, por exemplo, Derrida)], que é uma atitude que se identifica claramente, desde a Antiguidade Tardia, com o gnosticismo ideológico parasitário (racionalismo” é o pseudónimo oficial de “gnosticismo ) — por exemplo, quando o Pedro Sinde escreve o seguinte, revelando o gnóstico que existe em Anselmo Borges:

[as afirmações do Anselmo Borges] “decorrem de uma concepção como que desencarnada de catolicismo, isto é, de uma concepção em que a religião aparece como uma ‘espiritualidade’ sem esqueleto, em que o Espírito não penetra irradiantemente a carne, numa glorificação heróica, transfigurante do mundo sensível; em que os Evangelhos ficam sem o sentido literal, para expressarem um sentido vagamente simbólico ou alegórico, como uma alma sem corpo. Retira a literalidade dos Evangelhos, retira a substancialidade da Eucaristia”.

Ao longo dos séculos, e desde a Antiguidade Tardia, os gnósticos sempre foram parasitas (entendido aqui no sentido literal) ideológicos da Igreja Católica 

O dogma da “bondade natural do Homem” (na esteira de Rousseau) formula, em termos éticos, a experiência central do gnóstico: “o Homem é naturalmente bom porque é naturalmente Deus”.


O Anselmo Borges tem todo o direito de desconstruir ideologicamente o Novo Testamento; mas não o pode fazer em nome da Igreja Católica e na sua (aparente) qualidade de sacerdote da Igreja Católica. A hierarquia da Igreja Católica portuguesa não pode continuar (cobardemente) em silêncio.

«O homem chama de “absurdo” a tudo o que escapa às suas clandestinas pretensões à omnipotência. » — Nicolás Gómez Dávila

Em última análise, e depois da desconstrução ideológica do Novo Testamento (por parte do Anselmo Borges), qualquer argumento do Pedro Sinde em sentido contrário (ao do Anselmo Borges) é improfícuo: a própria desconstrução ideológica torna irrelevante qualquer contra-argumento, porque o objecto de análise deixa de existir (de forma objectiva, enquanto tal) através do desmantelamento ideológico por parte do gnóstico.

A única forma de lidar com um gnóstico é a de impedir a sua contaminação ideológica, afastando-o das instituições que são visadas pelo parasitismo ideológico que o motiva e alimenta.