A ética de Espinoza é logicamente absurda

 

«É que, deve notar-se, em primeiro lugar, que é em virtude de um só e mesmo apetite que o homem se diz tanto agir como sofrer. Por exemplo, quando nós demonstramos que a natureza humana é constituída de tal maneira que cada um deseja que os outros vivam à sua maneira

(…)

Este apetite, num homem que não é conduzido pela Razão, é paixão, que se chama ambição e não difere muito do orgulho; e, ao contrário, num homem que vive segundo o ditame da Razão, é acção, ou seja, virtude, que se chama piedade»

Espinoza


Vemos, nas duas citações supra, como Espinoza faz uma crítica à Natureza Humana, e depois incorre no tipo de acção que ele próprio criticou anteriormente — por um lado, “cada um deseja que os outros vivam à sua maneira”; e, por outro lado, “quem vive segundo a minha perspectiva é virtuoso”.

A ética de Espinoza pretende recorrer à Lógica para fazer a crítica da Natureza Humana, mas acaba por incorrer no mesmo tipo de incoerência lógica que pretendia criticar. Ou seja, a ética de Espinoza é (intrinsecamente) absurda.

Isto não significa que a ética não deva ser racional; significa, em vez disso, que a ética não se pode reduzir à Razão (como pretendia Espinoza). O ser humano é uma espécie de “sistema aberto”, sobre o qual não é possível um juízo definitivo isento de contradições.

A redução da ética à Lógica (ou a redução da ética à ciência) reduz o ser humano a um determinismo que Espinoza invoca para exorcizar a Graçaao invocarmos a “causa e efeito”, afastamos o nosso medo e calamos a nossa culpa. Para poder abusar da sua liberdade, o puritano necessita adoptar uma doutrina determinista — o determinismo é a ideologia do puritanismo das perversões humanas.

O determinismo de Espinoza seria concebível se não existisse a sua própria noção.