Os valores, e o utilitarismo

“A alma civilizada é aquela a quem interessam as verdades não utilizáveis” — (Nicolás Gómez Dávila)


A professora Helena Serrão publicou um trecho de um tal Frondizi (ler em PDF), um argentino que se dizia “filósofo” e que era muito bem-quisto pelos pragmatistas (americanos). Começa (o trecho) assim:

“O que são os valores? Dizemos que os valores não existem por si mesmos: necessitam de um depositário sobre o qual descansam. Aparecem-nos, portanto como meras qualidades desses depositários: beleza de um quadro, elegância de um vestido, utilidade de uma ferramenta. Se observarmos o vestido, o quadro ou a ferramenta, veremos que a qualidade valorativa é distinta das outras qualidades”.

Gente como o Frondizi reduziu a realidade ao subjectivo e ao solipsismo; um novo tipo de irracionalidade (anticientífica, porque é subjectivista) passou a estar na moda.

A ideia-base do referido trecho do “dito cujo”, é a de que “o ser humano cria os seus próprios valores” — da mesma maneira que há quem defenda (os modernos) a ideia segundo a qual “o ser humano criou a matemática, a lógica, e até os números primos”. Há quem fale em “evolução da lógica”! A cada passo, a modernidade insulta a nossa inteligência.

A ideia do tal Frondizi (amigo do pragmatismo) não é nova; tem milhares de anos.

Os primeiros filósofos (gregos, pré-socráticos) tinham já proposto um procedimento simplista: «eleva-se o critério de utilidade, a um princípio de conduta de vida: aquilo que é útil para o indivíduo ou para a sociedade, deve ser designado de “bom”».

Por exemplo: se a avó adoeceu com COVID-19, ¿é mais correcto que a família inteira abandone a casa, de modo a não transmitir a infecção, ou cuidar dela, mesmo que não exista qualquer esperança de vida?

Para a sociedade, seria mais útil que doentes idosos infectados com COVID-19 fossem abandonados ao seu destino, para que a causa da doença (o vírus) permanecesse isolada.

O utilitarismo, que é a escola materialista que defende este tipo de “raciocínio” ético, tem um problema fundamental e insolúvel: ¿quem define o que é útil? ¿E para quem há-de ser útil?

Segundo o avô do utilitarismo (Bentham), o critério de acção moral deve ser o do “maior bem para o maior número de pessoas”. ¿E o que acontece com aqueles que não fazem parte do “maior número”? Aqui, neste particular, estou de acordo com Karl Marx, que dizia que “o utilitarismo é moral de merceeiro inglês”.


Acontece o seguinte: os valores devem ser possuir uma validade universal, por um lado, e ser categóricos, por outro lado. Se cada um de nós tem uma ideia radicalmente diferente daquilo que é “viver bem”, e daquilo que é útil para se poder “viver bem”, segue-se que as exigências de um perfil aproveitável dos valores, permanecem irrealizáveis.

Ademais, o pensamento utilitarista tem outro ponto fraco: se os valores (morais) são estabelecidos de acordo com os critérios de “utilidade individual ou social”, uma pessoa pode, perfeitamente e sempre, abandonar esta moral por motivos de uma prudência egoísta. O princípio radical do interesse próprio, em última instância, também pode ser muito “útil”.

“¿Porque razão deve a utilidade ‘para o maior número possível de seres humanos’, estar acima da ‘utilidade para mim’ ?!”

Quando o professor de “filosofia”, Peter Singer, defende a opinião (utilitarismo) segundo a qual os seres humanos com deficiências físicas graves não têm qualquer direito à vida, justifica a sua opinião, por um lado, com a situação real de um deficiente grave —“uma vida que não vale a pena” (diz ele, sic); mas, por outro lado, também com a utilidade que representa, para a sociedade, não ter encargos materiais e financeiros com essas pessoas deficientes.

Assim, em primeiro lugar, o referido e douto professor universitário de filosofia incorre em um Sofisma Naturalista — dado que não podemos tirar conclusões morais a partir de um facto. E depois, ele pressupõe a existência de um consenso acerca do valor e dos custos convenientes de uma vida humana — consenso esse que não existe, de facto.

Ao contrário do que diz o texto do dito cujo: os valores existem independentemente do ser humano — assim como, por exemplo, os números primos já existiam antes de o ser humano aparecer na Terra.

Os valores morais estão pré-determinados objectivamente; e os seres humanos apenas têm de os encontrar (ou de os descobrir). Isto significa que, tal como existe uma verdade objectiva no domínio da Natureza (corroborada pelo método científico), também existem valores morais objectivos, no domínio do espírito.

Segundo o filósofo Nicolau Hartmann, “os valores possuem uma existência em si” — e independentemente do facto de o sujeito os considerar (ou não) como tal. Não é necessário que os seres humanos deduzam os valores morais de uma utilidade qualquer! — pelo contrário, os valores morais têm valor porque possuem o seu valor em si mesmos! Assim, por exemplo, o valor da justiça vale por si mesmo — e isto pode ser compreendido por cada ser humano.

Se fizéssemos depender o valor da “justiça”, por exemplo, de algo que não estivesse previamente (de um modo ou de outro) incluído no seu significado — se deduzíssemos esse significado, por exemplo, a partir da utilidade, ou da oportunidade política — o valor da justiça estaria entregue à bicharada (ou melhor!: “entregue à modernidade”, o que soe ser o mesmo).

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