Desidério Murcho: a narrativa da “eutanásia para todos, em nome da liberdade”

O Desidério Murcho escreveu aqui uma coisa a favor da liberalização da eutanásia.

O tipo de argumentação é sempre o mesmo: vai-se buscar um ou dois exemplos extremos de casos que não sejam passíveis de tratamento médico ou de cuidados paliativos, para depois — em cima desses dois exemplos extraordinariamente raros mas cuidadosamente escolhidos — construir a narrativa da “eutanásia para todos em nome da liberdade”.

“É a constituição moral da sociedade que fixa, a cada momento, o contingente dos mortos voluntários.” → Durkheim

1/ Em primeiro lugar, o mais surpreendente é que o Desidério Murcho defenda a eutanásia aplicada pelo Estado; o Estado passa a aplicar a pena-de-morte alegadamente consentida.

Temos um caso, na Bélgica, de um multi-homicida condenado a pena de prisão perpétua que solicitou (voluntariamente!) a eutanásia; e parece que o Estado belga está aberto a matar um homem que tinha anteriormente condenado à prisão perpétua. Ou seja, as bases do próprio sistema judicial ocidental começam a vacilar.

2/ Gente como o Desidério Murcho vê apenas o “hoje”; “carpe Diem”, é o motus da Esquerda. Uma das características fundamentais do esquerdista é que mal pensa no futuro, se é que pensa nele. Em nome da liberdade, estão dispostos a abrir uma caixa de Pandora: e “quem vier depois de mim, que se lixe!”.

3/ É neste contexto (da defesa do “carpe Diem”) que o Desidério Murcho faz a comparação entre a moral cristã, por um lado, e a moral do paganismo da Antiguidade na Grécia, por outro lado (citação com a devida alteração para o português correcto):

“Não é despiciendo imaginar que, numa contra-factual histórica em que o mundo actual não sofreu a forte influência dessas religiões (por exemplo, o Cristianismo) e foi, ao invés, directamente herdeiro da cultura clássica greco-romana, o suicídio não seria encarado com o infantil horror teológico que passou depois a ser comum.

Nessa contra-factual (na Grécia antiga), a eutanásia seria uma não-questão; seria encarada como um direito humano básico, inalienável (…)”

eutanasia-jack-elam-webA apologia da ética da cultura da antiga Grécia, feita por Desidério Murcho, é também a defesa do infanticídio que era próprio da “cultura clássica greco-romana”, por exemplo. Desidério Murcho defende (implicitamente) a ideia segundo a qual os pais deveriam ter a liberdade de matar as crianças recém-nascidas, se assim quiserem — porque seria incoerente que o Desidério Murcho achasse que uma parte da ética greco-romana seria recomendável, mas que a outra parte não o fosse.

É claro que o Desidério Murcho incorre aqui na falácia de Parménides.

4/ Servindo-se de um caso isolado, e exemplo extremo de um espanhol paraplégico, Desidério Murcho defende a ideia de que toda a gente tem o direito de pedir (“voluntariamente”, diz ele) ao Estado que se transforme em um solícito carrasco. E depois, o Desidério Murcho defende a sua (dele) superioridade moral criticando a eventual superioridade moral de outrem:

“Parece haver dois grupos de razões principais para esta dificuldade mental, e a primeira é que moralizar é uma prática opressora a que é fácil deitar a mão, e que permite exibir imaginadas superioridades morais perante os outros. Com a mesma malevolência com que as pessoas de antigamente diziam mal das mães solteiras — esse fenómeno horrível que acabaria por destruir por completo toda a civilização europeia, e em apenas duas semanas — os seus descendentes actuais andam à procura de tudo o que lhes permita exibir a sua suposta superioridade moral perante os outros.”

Para o Desidério Murcho, “moralizar é uma prática opressora” — excepto quando é ele a moralizar: a moralização dele é salvífica e soteriológica. eutanasia-cadeiras

“O liberalismo prega o direito do indivíduo ao embrutecimento, desde que esse embrutecimento não estorve o embrutecimento do seu vizinho.”Nicolás Gómez Dávila 

5/ Quando, por exemplo, Desidério Murcho critica a “malevolência com que as pessoas de antigamente diziam mal das mães solteiras”, parece que (ele) não sabe que existem estudos científicos (actuais, nos Estados Unidos) sobre a relação directa entre as mães solteiras (e ausência de pais), por um lado, e a delinquência juvenil, por outro lado.

Ou seja, o burrinho não percebeu ainda de que a “malevolência” dos antigos, em relação às mães solteiras, teria alguma razão de ser. A verdade é que existem algumas “liberdades” que, por si só, têm repercussões negativas na sociedade (entendida como um todo): mas desde que o embrutecimento da sociedade não “mexa” com o seu direito a embrutecer, o Desidério Murcho não se opõe à liberdade de toda a gente passar a andar a quatro patas.

Não entendo como este indivíduo é professor de filosofia no Brasil. É claro que o Desidério Murcho incorre aqui na falácia ad Novitatem.

“Not only is suicide a sin, it is the sin. It is the ultimate and absolute evil, the refusal to take the oath of loyalty to life. The man who kills a man, kills a man. The man who kills himself, kills all men; as far as he is concerned he wipes out the world.”

→ G. K. Chesterton 

Naturalmente que, para Desidério Murcho, o G. K. Chesterton foi um ignorante, um burro “atávico”.

6/ A mundividência do Desidério Murcho é absoluta- e infinitamente inconciliável com a minha, e com a da esmagadora maioria das pessoas.

Porém, o Desidério Murcho é um exemplo acabado do gnóstico moderno — o novo “Pneumático” — que se assume ontologicamente superior ao comum dos mortais. Estamos em presença de um novo tipo de puritanismo gnóstico e irresponsável. Benda tinha razão quando se referiu à “traição dos intelectuais”.

eutanasia

7/ O Desidério Murcho critica as pessoas “que seguem as modas”; mas é exactamente isso que ele faz. Aliás, ele não faz outra coisa — só que ele segue as modas impostas por uma elite política mundialista que se serve do conceito de “liberdade” para tentar impôr um totalitarismo materialista à escala global. O Desidério Murcho poderia facilmente fazer parte da novela “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley.

8/ Aconselho ao Desidério Murcho a leitura do livro “Suicídio”, de Durkheim, que se mantém muito actual.

O que as regularidades estatísticas do suicídio exprimem é uma força social distinta dos indivíduos, ou seja, um fenómeno raro e patológico se apenas entendido a nível individual, mas que deixa de o ser quando se adopta a perspectiva do grupo.

Por isso é que Durkheim diz que “é a constituição moral da sociedade que fixa, a cada momento, o contingente dos mortos voluntários” — ou seja, se gente do calibre moral do Desidério Murcho (que defende a liberalização da eutanásia estatal) estiver no Poder, o “contingente dos mortos voluntários” aumentará certamente.

Por isso é que nos países onde a eutanásia estatal foi legalizada e liberalizada (Bélgica, Holanda, Canadá), a taxa de suicídio aumentou (ou seja, o “contingente dos mortos voluntários” aumentou). Mas, para o Desidério Murcho, o aumento do “contingente dos mortos voluntários” é coisa normal e até desejável porque ocorre “em nome da “liberdade”.

É claro que, para o Desidério Murcho, o Durkheim é um “bicho careta” que já está desactualizado. Convém ao animal: “o passado não existe: o mundo é só o futuro que se engendra”.

9/ O Desidério Murcho defende a criação de uma hipernormatividade (jurídica) oriunda e fundada pelas elites, para se assim “proteger as pessoas da interferência hipernormativa (da tradição) da turba”.


E é esta merda um “professor” de filosofia.


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