A Igreja Católica da Idade Média, e a prostituição

O José, da Porta da Loja, iniciou assim um artigo acerca da Tia Ana Loureiro:

« O CM de hoje dá um destaque de página interior ao “fait-divers” protagonizado por uma puta, perdão, “acompanhante de profissão” que foi à AR defender o direito das putas a serem uma profissão condigna com a legalidade.

Nada a opor. Afinal dizem ser a mais velha profissão do mundo e mesmo no tempo de Salazar eram respeitadas pelo que faziam às escondidas, tendo-lhes sido dispensados os dispensários convenientes para prevenir doenças infecto-contagiosas. Realismo político, sem grandes moralismos.»

Note-se que a atitude de Salazar em relação às putas traduz a atitude tradicional (e tradicionalista) do catolicismo em relação à prostituição.


O sistema moral católico medieval (e tradicionalista) assentou primordialmente nos sete pecados mortais: os do espírito, por um lado, e os da carne, por outro lado — sendo que os do espírito seriam mais graves. O orgulho, a cobiça, a avareza, e a ira, pertencem à categoria dos pecados mortais do espírito; a gula, a luxúria, e a preguiça pertencem à categoria (entendida como “menos grave”) dos pecados da carne.

Concebidos desta forma, os sete pecados mortais regiam o sistema de ética comunitária católica desde o inicio da Idade Média, sendo que os pecados da concupiscência eram mais “desculpáveis” do que os pecados de ódio (esta é uma das grandes diferenças entre o sistema ético católico, por um lado, e os sistemas éticos calvinista e judeu, por outro lado): os pecados de ódio destroem a comunidade, ao passo que, sem uma certa tolerância em relação aos pecados da concupiscência, talvez não fosse possível sequer a própria existência da comunidade.

Por exemplo, para Dante (no seu “Inferno”), o orgulho, a cobiça, a ira e a avareza aparecem em primeiro lugar, como os pecados mais graves. Para Dante, a cobiça (que incluía a inveja) era o pior dos pecados (estou de acordo com ele) porque se opõe directamente à solidariedade e à caridade.

Porém, para a moral católica tradicionalista, os pecados de concupiscência eram, por assim dizer, tão “triviais” como a preguiça ou/e a gula (e a ingestão de bebidas alcoólicas). Em contraste, a luxúria significava “adultério”, mas neste caso só era aplicável a mulheres casadas e padres — porque o adultério não era visto como um mero caso de amor aventureiro, mas antes como uma forma nojenta e execrável de roubo.

O homem católico vulgar da Idade Média não considerava a castidade mais importante do que a caridade (aliás, esta valoração vem na linha de Santo Agostinho).

Todo este quadro ético se alterou um pouco com o advento do protestantismo calvinista, por um lado, e com a influência radical do puritano dominicano italiano Savonarola, por outro lado. Com a contra-reforma, os catecismos católicos mudaram também um pouco: a cobiça e a ira passaram a ser pecados mortais “menos importantes”, e a avareza e a luxúria como pecados mortais compreensíveis em determinadas situações. E em vez dos sete pecados mortais, a Igreja Católica da contra-reforma (século XVI) passou a preferir utilizar os Dez Mandamentos como esteio ético da comunidade (vemos aqui a influência, indirecta mas nítida, de Lutero e de Calvino na Igreja Católica do século XVI) .

Em suma, os pecados vulgares de concupiscência eram vistos (na Idade Média católica) com uma certa tolerância: enquanto a mulher adúltera era violentamente reprimida (em alguns locais da Europa medieval, as mulheres adúlteras eram afogadas), já a fornicação ofensiva de prostíbulo era tolerada, e a prostituição era vista como uma profissão exercida nos banhos públicos (principalmente nas cidades italianas, mas também no norte da Europa, na Holanda, na Flandres e em Inglaterra).

A prostituição não era propriamente legal, e as putas podiam ser presas de quando em vez, dependendo da influência política circunstancial das mulheres casadas da elite; mas eram posteriormente libertadas.

bordel-medieval

Assim, era comummente considerado (na Idade Média) que seria um dever cristão autorizar e manter um sistema eficazmente fiscalizado de prostituição pública — para além daquele que já existia nos banhos públicos desde o império romano.

No século XV — para além dos banhos públicos que sempre existiram desde o império romano —, os bordéis municipais não admitiam meninos, homens casados e/ou do clero, e fechavam durante a Semana Santa, aos Domingos e outros dias de festa.

As putas e as respectivas patroas eram consideradas (na Idade Média católica ) praticantes de uma profissão “que se respeitava, embora às escondidas”; muitas delas, já no fim das suas carreiras “profissionais”, tinham um casamento católico à espera, com um dote municipal relevante; ou então tinham uma reforma decente em um convento para as “almas arrependidas”.

A Igreja Católica, até à contra-reforma, não era propriamente puritana. O puritanismo (gnosticismo), enquanto sistema ético articulado, surgiu principalmente com Calvino, mas também com o protestantismo em geral. E, neste particular, Salazar seguiu fielmente essa tradição católica: não puritana, realista e pragmática.

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