Um jogo de xadrez tem regras, mas (dentro do jogo) os jogadores têm liberdade (1)

Uma das críticas que eu fiz (aqui, no blogue) a Fernando Pessoa foi forma determinista como ele encarou a astrologia. Contudo, preste (o leitor) atenção: eu não sou contra a astrologia, se esta for concebida como S. Tomás de Aquino a descreveu.

A astrologia não é — nem pode ser — um método de adivinhação do futuro.

Antes de se considerar uma carta astrológica de um qualquer indivíduo, tem que se ter em conta a sua herança genética e epigenética, o meio-ambiente onde ele foi criado, o meio cultural em que ele se formou, a sua educação académica, e outras variáveis que não menciono aqui e agora. Só depois de se ter uma noção destas variáveis pessoais, uma carta astrológica começa a ter algum sentido.

Depois de se ter a noção dessas variáveis, a carta astrológica faz algum sentido exactamente não por ser uma adivinhação do futuro (quiromancia), mas por ser apenas uma avaliação racional de tendências.

Por exemplo, uma analogia: se eu vejo um velho Renault 4L a 130 km/hora em uma rua da cidade em hora de ponta, posso afirmar com segurança que é provável que o condutor vá ter um acidente. Porém, se eu vejo um BMW topo de gama a 130 km/hora numa rua da cidade, já digo que é possível que vá ter um acidente, porque o BMW tem travões ABS e uma estabilidade e aderência que o Renault 4L não tem.

Dizer que “é provável”, ou que “é verosímil”, ou que “é possível”, não é adivinhar o futuro (não é a mesma coisa que “ter a certeza”): é apenas seguir a teoria da probabilidade.

Por alguma razão, quando está Lua cheia, ninguém “aguenta” os malucos nos manicómios. E a propósito da Lua, é conhecida a teoria das marés de Galileu, que se demonstrou errada porque ele baseou a sua (dele) teoria apenas no movimento de rotação da Terra, e propositadamente não tomou em consideração a influência da Lua no movimento das marés.

Galileu não colocou a hipótese da influência lunar no movimento das marés porque tinha um preconceito negativo em relação à astrologia.

Esta forma de ver a astrologia não é incompatível com a doutrina da Igreja Católica — porque não se trata de adivinhar o futuro. S. Tomás de Aquino diz isto mesmo (por outras palavras) no Summa Contra Gentiles.

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