A vida humana, enquanto fenómeno biológico, não pode estar sujeita a interpretações filosóficas por parte dos médicos

Temos aqui um texto no Observador assinado por uma menina de seu nome Mar Mateus da Costa — se ela fosse estrábica, seria Marissol: teria um olho no Mar e o outro no Sol; mas o estrabismo da Mar é ideológico: através da ambiguidade e da ambivalência no que diz respeito à eutanásia, a Mar acaba por ceder à permissividade em relação ao irracional. Ela não é Marissol de nome, mas é uma Marissol mental.

Tem-se feito tudo para se justificar a irracionalidade da eutanásia patrocinada e perpetrada pelo Estado, ao mesmo tempo que se iliba o Estado de responsabilidades nos cuidados paliativos.

Há um trecho do texto da Marissol que salta à vista:

«A Constituição atesta a inviolabilidade da vida humana, pelo que a Assembleia da República, ao aprovar os projectos-de-lei dos demais partidos, separou claramente o conceito de vida humana do conceito de meramente estar vivo. Se aceitarmos esta separação, somos também forçados a aceitá-la na formulação de Genebra. Quer então isto dizer, por hipótese, que se um médico não se declarar objector de consciência, não estará a violar o juramento que fez no início de carreira. Naturalmente, caso se declare o problema não se aplica.»


medico-sns-webPara a ciência, ou melhor dizendo, para a biologia, não é possível separar o conceito de “vida humana” do conceito de “meramente estar vivo”. A biologia não é filosofia. Quando os médicos substituírem a biologia pela filosofia, estaremos todos fodidos.


Quando vemos a Marissol (que é uma estudante de medicina) a aceitar como válida (no texto) a distinção entre “vida humana”, por um lado, e “o ser meramente vivente”, por outro lado — que é uma distinção irracional feita por Peter Singer e, antes deste, por Heidegger e pelos nazis —, percebemos a dimensão enorme do problema que a nossa sociedade tem hoje.

O “filósofo” Peter Singer separou o o conceito de “vida humana”, por um lado, do conceito de “meramente estar vivo”, por outro lado — para assim justificar a eutanásia utilitarista de pessoas desprovidas de consciência. Mas quando a mãe dele entrou em uma fase adiantada de Alzheimer, Peter Singer contratou uma enfermeira permanente para cuidar da mãe dele — ou seja, pimenta no cu dos outros é chupa-chupa: podemos eutanasiar as mães dos outros, mas não a nossa.

Nada disto é novo — ou, como dizia Fernando Pessoa: em vez disso, é “a velhice do eterno novo”. A Marissol escreve que a legalização da eutanásia pelo Estado acontece “pela primeira vez”, o que não é verdade. Se a Marissol quiser tergiversar sobre filosofia, então que estude a História das ideias.

Para além de Nietzsche, sobretudo Heidegger sustentou ideologicamente o programa nazi da eutanásia “voluntária” em massa — a base ideológica de Heidegger é (grosso modo) a seguinte:

O Homem vive no futuro que é a sua morte (“Sein zum Tode”). E, ainda segundo Heidegger, o ser humano sente a “angústia” da sua morte futura e por isso transforma-se em uma espécie de “dejecto” (“Verfallen” ≡ dejecção) — ou seja, a angústia em relação à morte futura transforma o ser humano em um merdas, num ser humano inferior, em um “Untermenschen” (em uma espécie de judeu).

Em consequência, o ser humano superior (o nazi) ignora a morte (não tem medo da morte, porque é uma espécie de deus), faz de conta que a morte não existe (“transcende a morte”, não por via da tradição transcendente do sobrenatural cristão, mas antes pela via da transcendência revolucionária do super-homem prometaico). “Ignorar a morte”, para Heidegger e para a ideologia nazi, significa eliminar a angústia da morte na cultura antropológica, o que vai contra a própria Natureza Humana.

A partir do momento em que a Natureza Humana é radicalmente contrariada por uma qualquer ideologia (por exemplo, o actual materialismo prometaico), chegámos à “morte anónima” da pessoa, ou seja, a morte que é ocultada na sociedade, para não se contrariar a imagem politicamente correcta que é a do herói que despreza e/ou ignora a morte. Eric Voegelin falou nisto em um livrinho com o título “Religiões Políticas”.

Finalmente, um recado para a Marissol: o conceito de “pessoa humana” é redundante (é um pleonasmo): não há pessoas que não sejam humanas, nem humanos que não sejam pessoas.

Por causa de mentes distorcidas como a da Marissol é que hoje existe a validação política do conceito de “pessoas não-humanas” (herança ideológica de Nietzsche, de Heidegger e do nazismo). E esta gente escreve do Observador.

Deixe uma resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s