A legalização da eutanásia, e a “destruição criativa” da sociedade

A Ana Sofia de Carvalho faz aqui um “diagnóstico” correcto acerca da posição putativamente “libertária” da Esquerda em matéria da legalização da eutanásia (que inclui o PSD de Rui Rio), mas depois ela aplica-lhe o “tratamento analítico” errado.

“Volto uma vez mais ao tema da eutanásia. Confesso que ao ler a exposição de motivos dos projectos de lei apresentados pelo BE, PS e PAN me fez revisitar uma corrente filosófica, denominada de libertária, que teve como principal autor um filósofo de Harvard, Robert Nozick.”

A crítica feita, por diversos filósofos, ao “libertarismo” de Nozick, é devastadora!

Desde logo, a crítica do filósofo Michael Sandel, que demonstra que o erro dos libertários é o de “adoptarem uma concepção voluntarista do sujeito” — isto é, adoptam a ideia segundo a qual o sujeito preexiste (existe anterior- e separadamente) aos fins que ele próprio elege. Em bom rigor, é impossível que o sujeito tenha um tal desapego de si mesmo a respeito dos fins, e por isso torna-se necessária a admissão de que a própria identidade (do sujeito) é constituída por aqueles fins.

Sandel defende a ideia segundo a qual a questão de saber se o Estado deve recusar intervir no tema do aborto depende da verdade ou falsidade da doutrina moral que concebe o aborto como um assassínio — e apenas se as teses substantivas da Igreja Católica sobre este assunto se revelarem falsas se terá o direito de exigir do Estado que permaneça neutro nesta matéria.

Ou seja, em matéria do aborto, o Estado actual não é neutro! E o mesmo se aplica à lei da eutanásia. Defender a ideia de neutralidade do Estado em matéria do aborto ou da eutanásia, é um sofisma.


eutanasia-velhariasA crítica do filósofo MacIntyre à chamada “escolha soberana” do indivíduo, em relação a uma escolha com a qual não estaria previamente comprometido, é a de que o sujeito (o indivíduo) é, em primeiro lugar, um agente (uma pessoa que age), e, nesta qualidade de agente, deve dar um sentido inteligível às suas acções. Ora, esse sentido inteligível não pode resultar de um acto isolado, mas, pelo contrário, deve ser encontrado numa sequência de actos, para que possa adquirir um mínimo de inteligibilidade. Essa “sequência de actos” é parte da identidade do individuo.

Qualquer interpretação de uma “acção deliberada” do sujeito necessita de ser contextualizada para adquirir sentido — e esse contexto não é objecto de escolha por parte do agente, mas antes é imposto ao agente. Esse contexto é constituído, em primeiro lugar, por um conjunto de práticas para as quais não estabelecemos (nós próprios, enquanto indivíduos isolados) as respectivas regras (por exemplo, através da herança histórica, ou da tradição).

Portanto, antes de a Ana Sofia de Carvalho criticar as posições contraditórias da Esquerda utilitarista (Bloco de Esquerda, PAN, Partido Socialista, PSD), deveria (em primeiro lugar) criticar a própria posição libertária de Nozick que se apoia numa concepção voluntarista do sujeito.

Ou seja, o Estado não é neutro, e esta Esquerda utilitarista sabe muito bem disso!

É suposto, segundo a Esquerda, que a legalização da eutanásia — assim como aconteceu com a legalização do aborto — deva ser financiada e imposta coercivamente pelo Estado em nome de uma putativa (e inexistente, em termos práticos) “liberdade do indivíduo a escolher”.

A legalização da eutanásia — assim como a legalização do aborto — serve fins políticos inconfessáveis e sinistros; e é sustentada por dois tipos de agentes políticos: os ignorantes — como é o caso de Rui Rio ou dos dirigentes do PAN (Pessoas-Animais-Natureza) — ou os que defendem a “destruição criativa da sociedade”, como é o caso da liderança do Bloco de Esquerda.

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